domingo, 11 de novembro de 2018

O produto perfeito para o seu problema! Lendo e criando gêneros da publicidade - Parte 4

Esse é o quarto e último post da série em que estou narrando o trabalho desenvolvido a partir de gêneros da publicidade com alunos do 6º ano do Fundamental. Não deixe de ler a primeira parte do relato, aqui, a segunda aqui e a terceira parte aqui.

Depois de trabalhar com anúncios impressos e com textos literários relacionados ao tema da propaganda, chegava a hora de mexer com outro instigante gênero da publicidade: os anúncios em audiovisual. O que não me parecia difícil, dado a onipresença desse tipo de enunciado na mídia televisiva e a familiaridade dos alunos com ele.

De fato, desde o início as atividades dessa etapa foram muito bem recebidas por eles. Primeiro, como um aquecimento, levei para mostrar em sala vários exemplos de anúncios em vídeo, considerando produtos presentes no imaginário infanto-juvenil. Dois dos quais até hoje gosto muito são o comercial do chocolate Snickers e o anúncio da ração canina Pedigree Sachê. Durante a sessão dos vídeos, de forma semelhante ao que já tinha feito com os anúncios impressos, eu fazia comentários e perguntas, tentando apontar aos alunos aspectos importantes do gênero.

Como o objetivo seguinte era que eles produzissem vídeos de anúncios a partir de roteiros escritos, considerei que uma distinção essencial a se fazer era aquela entre o texto verbal e o texto visual dos anúncios, ou seja, entre o texto dito com palavras, seja por um locutor em off ou por personagens, e o "texto" depreensível da ação e da interação entre os personagens. A união dos dois textos, alternando trechos do verbal e do visual, originaria o roteiro. Importante ressaltar que, na falta de uma referência teórica mais específica sobre a qual me apoiar, essa nomenclatura foi proposta por mim mesmo. Vejo muitos trabalhos pedagógicos a partir do conceito de gênero se prenderem excessivamente a diretrizes e análises exógenas, e que por isso acabam perdendo o componente fundamental da intuição do professor e da sua própria experiência de leitor. Isso é um erro, pois muitas vezes são esses últimos componentes que se revelam mais importantes na mediação do aprendizado dos alunos sobre o gênero, e mesmo a metalinguagem acadêmica se torna nebulosa e pouco acessível para eles. Devemos usar a teoria, mas reconhecer seus limites e ir além deles!

Pois bem; para facilitar a compreensão dessa dicotomia, e ao mesmo tempo impulsionar a criatividade dos alunos, que seria essencial nas etapas seguintes, utilizei dois anúncios ficcionais oriundos do excelente programa humorístico Tá No Ar, da Rede Globo. Eles apresentavam o produto Sapos, que consistia literalmente de um grande sapo que a mãe colocava ao lado do filho durante o sono para protegê-lo de mosquitos, e o Insetizinho, um aerossol cuja finalidade era desmaiar o vizinho que não tinha cuidados com os criadouros do mosquito da dengue, de modo que você poderia entrar no quintal dele e acabar com os focos do mosquito. O Tá No Ar, programa que teve umas quatro temporadas na Globo, tem vários ótimos esquetes com anúncios de produtos fictícios e outras paródias da esfera televisiva. Recomendo o programa a todos os professores que pretendem mexer com isso!

O vídeo do Sapos, mais curto e simples, serviu para eu explicar inicialmente a distinção entre os textos verbal e visual e a consequente formação do roteiro, e o do Insetizinho, mais longo e complexo, foi mostrado aos alunos com a proposta de um exercício em duplas, em que um membro deveria registrar o texto verbal e o outro o texto visual, montando, a seguir, o roteiro.

Conduzido dessa forma, considerei o trabalho um grande sucesso: os alunos não apenas compuseram roteiros em sua maior parte corretos, como aplicaram os conhecimentos adquiridos posteriormente para escrever os roteiros de seus produtos, baseados na pesquisa de mercado feita anteriormente. Infelizmente, como já apontei no início desse relato, o gargalo de tempo disponível não permitiu que chegássemos ao final do projeto, de modo que nem todos esses roteiros foram transformados em vídeos, e apenas um teve a produção um pouco mais avançada: o do Multi D, um multiplicador de objetos, criado para atender à demanda levantada nos questionários sobre ter que "dividir as coisas com irmãos".

O resultado do vídeo, escrito, dirigido e estrelado pelos alunos, com a minha colaboração, foi, a meu ver, muito satisfatório. As meninas conseguiram utilizar vários componentes do gênero, como a locução, a criação de uma situação ficcional, a interação entre personagens, as expressões faciais, dentre outros, com propriedade, explorando o tema de forma bem humorada sem perder o vínculo com a realidade. Mesmo sem a realização da grande feira final, considero a propaganda do Multi D um símbolo de um trabalho bem sucedido, e uma inspiração para os próximos anos, em que terei a oportunidade de repetir e aperfeiçoar o projeto.


Vídeo de propaganda do produto Multi D. Software: Sony Vegas e Audacity.


E assim terminou o trabalho com o projeto Feira de produtos em 2017! Um processo longo, mas que ao final estava longe de dar sinais de cansaço, com os alunos e eu nos divertindo e mostrando muito prazer e interesse.

Deixa nos comentários o que você achou do trabalho! O que você faria diferente de mim? Que sugestões daria? Tem ou conhece alguma experiência legal com propaganda na escola? Vamos trocando ideias 😁

O produto perfeito para o seu problema! Lendo e criando gêneros da publicidade - Parte 3

Esse é o terceiro post da série em que estou narrando o trabalho desenvolvido a partir de gêneros da publicidade com alunos do 6º ano do Fundamental. Não deixe de ler a primeira parte do relato, aqui, e a segunda parte, aqui.

Nessa terceira parte do relato, exponho uma das etapas mais empolgantes do projeto da feira de produtos: a nossa pesquisa de mercado, ou, em outras palavras, o momento em que saímos pela escola coletando informações sobre os problemas enfrentados pelos alunos, para depois propor soluções imaginárias para eles por meio dos produtos inventados. Essa etapa foi pensada desde o início como forma de proporcionar aos alunos uma oportunidade concreta de interação social, fazendo com que os produtos atendessem às pulsões de fantasia próprias da idade deles, mas também fincassem pés no contexto socioeconômico real em que viviam. Assim, os enunciados produzidos passavam a ser enunciados concretos, e não apenas respostas a comandos e solicitações artificiais de um professor.

Desde 2015, quando as primeiras ideias desse projeto foram ensaiadas, eu estava convencido de que essa etapa precisaria de questionários ou de outro gênero semelhante, de modo a colher as informações dos demais alunos da escola, mas me perguntava como levar os alunos à compreensão de um gênero padronizado como o questionário, de modo que eles pudessem eles mesmos produzir a folha de questões, ou pelo menos ter uma participação significativa nela, sem tornar as atividades tediosas e mecânicas. Não sei se por sorte ou amadurecimento, naquele ano de 2017 em que foi feito o trabalho que agora estou narrando, eu tinha chegado a uma ideia que considerei muito eficiente: trabalhar os questionários por meio de jogos.

Os jogos sempre foram parte importante de meu trabalho. Eu mesmo sou um fã de joguinhos, principalmente os de tabuleiro, com regras e jogabilidade complicadas e interessantes; assim, não tinha como não me aventurar a criar jogos para o aprendizado de temas da aula de Português. O desafio dos questionários é um dos que eu mesmo criei, e considero um dos mais legais.

Mas, antes de chegar nele, preciso falar um pouco de como iniciei a abordagem dos questionários com os alunos. Para diagnosticar o conhecimento prévio deles sobre o gênero, fizemos um momento em que, em duplas, eles sorteavam uma palavra-tema de um potinho fornecido por mim, e deveriam criar uma pergunta com quatro opções de resposta, para o parceiro de dupla responder. Obtive como resultado um conjunto variado de perguntas, que depois mostrei aos alunos, projetadas em data show, discutindo com eles aspectos positivos, problemas e possibilidades alternativas da elaboração das perguntas e das alternativas. Os principais defeitos das perguntas por eles criadas foram a falta de clareza ou detalhamento das perguntas e a redundância das alternativas, conforme se pode ver nos exemplos abaixo. Ao mesmo tempo, porém, muitas questões mostravam um bom domínio prévio do gênero. Também abordei, nesse momento, a distinção entre pergunta de resposta única e pergunta de múltiplas respostas, apontando a necessidade ou não de uma alternativa não contradizer as outras, aspecto que seria crucial nos questionários que seriam aplicados na escola.


 
 Exemplos de perguntas elaboradas pelos alunos. Acima, duas perguntas mal elaboradas; abaixo, duas perguntas bem elaboradas

Então, tinha chegado a hora de jogar! Dividido em duas fases, o desafio dos questionários era na verdade bem simples: os alunos se dividiam em quatro grupos. Na primeira fase, eu dava uma pergunta e cada grupo deveria criar uma alternativa coerente. O grupo que conseguisse isso ganhava um ponto, e o grupo que propusesse a opção mais criativa ganhava mais um ponto extra. Na segunda fase, eu oferecia apenas o tema e sorteava dois grupos, um para elaborar uma pergunta e outro para elaborar quatro alternativas coerentes para ela. A pergunta bem elaborada valia um ponto, e as alternativas valiam de zero, caso nenhuma fosse coerente, a dois pontos, caso as quatro fossem válidas. O clima de disputa, o destaque das alternativas mais criativas e os feedbacks que eu dava ao longo do jogo sobre a validade ou não das perguntas e alternativas criadas pretendiam progressivamente amadurecer a compreensão dos alunos em torno do gênero.

Mesmo longe do nível ideal, parece que o processo aprimorou bastante o domínio do gênero de uma boa parte dos alunos. Pelo menos foi isso que percebi no momento seguinte, em que elaboramos o questionário oficial para a pesquisa de mercado da turma. Como etapa final do jogo, eu expliquei o objetivo de elaborar uma folha de questões para pesquisar as necessidades dos alunos da escola e as tendências de consumo deles, e os quatro grupos receberam cada um uma pergunta, elaborada por mim já com vistas ao questionário oficial, e deveriam criar no máximo 8 alternativas para ela, cada uma valendo um ponto. Cada grupo também foi incumbido de propor mais uma questão para o questionário oficial, com 4 alternativas, que também valeria pontos e definiria o grupo vencedor. Assim, os alunos exercitariam, ao mesmo tempo, o estabelecimento de coerência entre as perguntas dadas e as alternativas criadas e a elaboração autoral de questões.

O desempenho deles na elaboração de alternativas foi excelente, enquanto o de elaboração de perguntas não foi tanto, com apenas um grupo conseguindo criar uma questão válida para o objetivo do questionário. Refletindo sobre esse desempenho muito bom de alguns, mas mediano de outros, penso que possivelmente o processo por demais analógico de produção do texto, com carência de utilização das ferramentas digitais disponíveis, pode ter dificultado o engajamento mais efetivo dos alunos. Um ponto para ajustar nas futuras aplicações do projeto.

Ainda faltava abordar um último aspecto do gênero questionário: o texto introdutório, um recurso utilizado para explicar ao sujeito da pesquisa sobre a natureza dela e os motivos daquelas perguntas estarem sendo feitas a ele. Para mostrar aos alunos a necessidade do texto, estabeleci uma discussão baseada em duas perguntas: a) o que você faria se um estranho lhe abordasse e começasse a fazer perguntas?; b) como o estranho poderia lhe convencer a responder as perguntas? Após um animado debate, chegou-se ao consenso de que (não podendo oferecer dinheiro, possibilidade levantada por vários alunos), havia necessidade de explicar os objetivos das perguntas, dirigir-se à pessoa com educação e explicitar a garantia do anonimato, além de dar instruções ao leitor sobre como responder corretamente as questões.

Assim, cada aluno elaborou sua proposta de texto introdutório ao questionário. Com o avançar do tempo, e eu já sentindo que precisava apressar um pouco o trabalho, acabei fazendo algo de que não me orgulho: escolhi eu mesmo o melhor texto, e pulei a importante etapa do cotejo coletivo dos textos produzidos, para escolha igualmente coletiva do texto mais adequado. Não façam isso, colegas! Tentem organizar seu tempo melhor do que eu 😏

O questionário estava pronto! Com um texto introdutório e cinco perguntas, na elaboração das quais os alunos haviam tido participação intensa, meu objetivo parecia ter sido alcançado. Vejam abaixo o resultado final:

QUESTIONÁRIO

Olá, boa tarde.
Eu sou da 532, eu quero lhe oferecer uns produtos, mas para isso você tem que responder umas perguntas que eu vou te fazer.
Mas nessas perguntas você tem que escolher uma só alternativa.
Isso é para o trabalho de Português, que é para fazer produtos para resolver os nossos problemas. Obrigada pela sua atenção.
Texto: Luana Soares

1) Na sua opinião, qual o maior problema da escola?
(  ) A merenda não é boa para o consumo
(  ) Os funcionários demoram muito para abrir a porta depois do recreio
(  ) A guerra de frutas
(  ) Entrada cedo e saída tarde
(  ) Pichações
(  ) O fedor na frente da escola
(  ) O barulho das salas
(  ) As regras de vestimentas
(  ) A ignorância dos funcionários

2) Qual é o maior problema que você enfrenta em casa?
(  ) Brigar com familiares
(  ) Ser excluído pela mãe e pelo pai
(  ) Problemas financeiros
(  ) Seus familiares estarem doentes
(  ) Seu pai e sua mãe brigarem
(  ) Castigos
(  ) Apanhar dos pais
(  ) Pais alcoólatras
(  ) Dividir as coisas com irmãos

3) Qual o problema mais sério da sua rua?
(  ) Crimes
(  ) Vizinhos fofoqueiros
(  ) Som alto
(  ) Movimentação de veículos
(  ) Lixo amontoado
(  ) Ruas esburacadas
(  ) Enchente
(  ) Brigas de vizinhos
(  ) Cultos religiosos barulhentos
(   ) “Gato” na fiação elétrica

4) Você vai ao shopping comprar um produto para usar no seu dia-a-dia. Você acha mais importante que o produto tenha…?
(  ) uma cor legal
(  ) durabilidade
(  ) qualidade
(  ) desenho
(  ) um comercial famoso
(  ) múltiplas funções
(  ) um item a mais
(  ) preço barato

5) Qual a melhor coisa que pode acontecer na sua casa?
(  ) Ser reformada
(  ) Ganhar seu próprio quarto
(  ) Ganhar seu próprio banheiro
(  ) Ganhar sua mesada
(  ) Sua família estar toda reunida
(  ) Não morar mais de aluguel
(  ) Receber a visita de um famoso
(  ) Ganhar uma piscina



Feitas cerca de 200 cópias do questionário, ele foi passado amplamente entre os alunos do 6º ao 9º ano da escola. Nessa parte, os grupos tiveram autonomia para abordar pessoas, entrar em salas, explicar oralmente o objetivo do questionário e utilizar as mais diversas estratégias, o que gerou um clima animado e dinâmico. Em pouco mais de uma hora, já tínhamos todas as folhas preenchidas, e os grupos puseram-se a contabilizar as respostas. Depois, cada grupo me repassou sua contagem, e eu fiz a organização final dos dados, a partir dos quais montei gráficos que levei para debate entre os alunos, e que renderam também uma repercussão legal no Facebook. Vejam abaixo os resultados:



 
Gráficos com resultados do questionário aplicado. Software: LibreOffice Impress.


Ainda deu tempo dos alunos passarem os gráficos para cartolina, em tamanho grande, para serem expostos na escola. Teve até gráfico tátil, feito com bolinhas de jornal, numa tentativa de adaptar o texto para um aluno com deficiência visual que compunha a turma!

Uma nota a respeito da recepção: lembro que as menções nos questionários a problemas como "a ignorância dos funcionários" e à qualidade da merenda, manifestações, a meu ver, genuínas dos alunos, sem nada de grosseria ou gratuidade, geraram um burburinho entre os adultos da escola, que se sentiram pessoalmente ofendidos ou simplesmente, como me foi relatado mais tarde, achavam que eu não deveria expor aquilo. Ao mesmo tempo, pouca ou nenhuma manifestação positiva sobre qualquer aspecto do trabalho. É como diz uma professora que tive: os silêncios também são respostas... em suma, todo professor que quiser dar voz aos alunos certamente vai se deparar com essas vozes que têm um quê de anarquia, e, se escolher levá-las ao grande público (o que é o correto), vai enfrentar esses choques com a cultura corporativista e conservadora que predomina nas escolas. Precisamos enfrentar isso, se quisermos a mudança na educação!

E assim terminou nossa pesquisa de mercado! Agora só falta a quarta e última parte do relato, na qual você confere um pouco do que os alunos fizeram com esses dados, enquanto aprendíamos sobre propaganda audiovisual. Não deixe de ler!

domingo, 28 de outubro de 2018

O produto perfeito para o seu problema! Lendo e criando gêneros da publicidade - Parte 2

Esse é o segundo post da série em que estou narrando o trabalho desenvolvido a partir de gêneros da publicidade com alunos do 6º ano do Fundamental. Não deixe de ler a primeira parte do relato, aqui.

Claro que a literatura não ficaria de fora do projeto da feira de produtos. Afinal, são muitos os poemas, contos, crônicas, canções e histórias em quadrinhos que, além de proporcionarem prazer estético e serem peças importantes na história do seu gênero, podem ser discutidos sob o ponto de vista da representação da propaganda, do mercado, do consumo, etc. Os textos que eu pretendia ler com os alunos no ano passado eram: o conhecidíssimo conto O traje novo do imperador, na versão de Hans Christian Andersen; o poema de Décio Pignatari que marcou época na literatura brasileira, conhecido como Beba Coca Cola; a canção Téo vai às compras, da banda carioca El Efecto; e a HQ Paraíso perdido, escrita e desenhada pelo criador do Tio Patinhas, Carl Barks, em que a família de patos se refugia em um vale no Himalaia onde não existe o valor do dinheiro, mas acabam gerando uma violenta histeria no povo devido a cobiça por... tampinhas de garrafa!



 Acima, à esquerda, capa do livro Contos de Hans Christian Andersen; à direita, primeira página de Paraíso perdido; abaixo, poema de Décio Pignatari

Bom, na verdade cito aqui os quatro textos mais para mostrar a diversidade de leituras que um mesmo projeto comporta, pois, de fato, o único texto que foi devidamente explorado foi o conto de Andersen. Por limitações de tempo, a HQ sequer foi lida, e os outros textos não pareceram, à época, atrair muito os alunos, razão pela qual não levei adiante o trabalho com eles, que ficou limitado à leitura individual em sala. Mas pode ser que eu tenha também errado na abordagem, ainda preciso fazer uma autocrítica mais profunda... mas falemos de O traje novo do imperador!

A história remonta à Idade Média espanhola, tendo sido registrada pela primeira vez pelo príncipe Juan Manuel na coletânea El Conde Lucanor. A versão de Andersen traz o estilo romântico e o olhar espiritualista e otimista do autor dinamarquês, apresentando o imperador fanático por belos trajes que se deixa enganar por dois forasteiros que dizem ser capazes de, por um bom pagamento, tecer uma roupa linda, finíssima e com o curioso bônus de ser invisível aos estúpidos e aos incapazes. Claro que eles nada mais são do que ladrões, que se põem a tecer linhas e panos inexistentes por vários dias, guardando para si os generosos investimentos imperiais; acontece que nenhum dos aristocratas confessa não ver a roupa, com medo de ser considerado imprestável. Instaura-se, assim, um grande delírio coletivo em torno do objeto, que culmina no imperador desfilando em praça pública sem veste alguma. O dia é salvo por uma criança, a única ingênua (ou honesta) o suficiente para dizer em voz alta que o imperador não estava vestindo nada.

Tentando seguir a sequência prevista pela metodologia de letramento literário como elaborada por Rildo Cosson, iniciei o trabalho com uma atividade de motivação, que pretendia fazer os alunos experimentarem a sensação de "não ver" uma coisa que todos "viam". Era o jogo super conhecido do caça-palavras, mas com um toque especial: as palavras a serem encontradas seriam os nomes dos próprios alunos, mas alguns nomes, cerca de um terço da turma, não constariam do quadro. Assim, enquanto muitos alunos encontrariam seus nomes, outros ficariam muito tempo procurando sem sucesso, e eu esperava registrar e discutir com eles o que acontecesse ao longo do processo. Para isso, utilizei um software online de criação de caça-palavras, bastante simples e funcional, e salvei em formato .jpeg para projetar para os alunos em data show.

O jogo transcorreu animadamente. Os alunos marcavam seus nomes com pincel no quadro conforme iam encontrando. Muitos encontraram rapidamente, e se puseram a procurar os nomes dos outros, gerando um certo clima de expectativa quando encontravam algum antes da pessoa respectiva. Frases como "já encontrei o da Ana Paula..." e "égua, tu ainda não encontrou?" se tornaram comuns. Enquanto isso, os alunos cujos nomes não estavam no diagrama oscilavam entre um estado de ansiedade, preocupação ("Égua, tio, cadê o meu?"), desconfiança ("O senhor não botou o meu aí...") ou mesmo desmotivação, quando se conformavam de que não encontrariam. Eu tentava mediar todas essas reações, sem revelar o truque. Passados cerca de vinte minutos, dei por encerrada a brincadeira e pedi para falarem sobre as sensações experimentadas, ao que eles responderam que realmente tinham ficado ansiosos e um pouco nervosos, mas todos já intuíam que os nomes de alguns não estavam ali. Anunciei então que leríamos um conto no qual estaria presente uma situação parecida com aquela.

Ao distribuir o conto, eu esperava estabelecer uma etapa de leitura silenciosa e outra de leitura em voz alta com participação dos alunos. Não posso negar que ambas as etapas foram realizadas com uma mistura bastante caótica de reações: alunos que leram atentamente, sentindo curiosidade pela história; alunos que rejeitavam a leitura do texto completo, paravam na metade, ou antes, e punham-se a fazer outras coisas; alunos que liam uma certa parte do texto e faziam comentários jocosos, aparentemente ironizando a tarefa; alunos que simplesmente não liam... enfim, um cenário que desesperaria qualquer professor! Comigo não foi diferente; mas, com o tempo, fui percebendo que a leitura, principalmente a leitura cursiva, aberta para o sujeito, como desejo fazer, também é um hábito, e, como tal, precisa ser construído. Como era uma das primeiras tarefas na turma em que efetivamente líamos, não era surpreendente que os alunos se portassem daquela maneira. Hoje, que ainda trabalho com os mesmos alunos e a leitura se tornou rotina nas aulas, posso garantir que a postura de todos (inclusive a minha) é bem diferente.

De todo modo, o trabalho com o texto prosseguiu. Nas aulas seguintes, pedi aos alunos que respondessem um exercício de interpretação, que visava a exercitar e ensinar algumas estratégias de leitura, passando pela decodificação, pela inferência, pela compreensão e pela interpretação, e relacionando o texto com a vida.

 Exercício de leitura proposto a partir da leitura de O traje novo do imperador


A seguir, apresentei aos alunos uma análise de recursos linguísticos presentes no conto, enfatizando a presença de adjetivos e advérbios derivados (aqueles em que está presente o sufixo -mente). O objetivo, claro, não era meramente aprender a identificar e nomear as palavras desses tipos, mas principalmente saber usá-las na ordem textual. Por isso, o próximo exercício dos alunos seria a escrita de uma narrativa curta continuando a história de O traje novo do imperador a partir de seu final, devendo ser usados adjetivos e advérbios ao longo do texto.

Consigna do trabalho de produção textual

Em termos de conteúdo, os textos dos alunos, de forma geral, exploraram dois caminhos principais: a solução do problema da nudez do imperador e a punição dos vigaristas. Cito abaixo trechos de algumas produções, que sintetizam, a meu ver, a forma como a turma se relacionou com a leitura e a tarefa. O texto do aluno Vitor foi um dos que efetuou uma espécie de hibridização do conto original, trazendo elementos de outras histórias maravilhosas:
O imperador tava andando pelado numa floresta ai ele escutou um barulho atrás da árvore e foi ver o que era era uma passagem secreta e na passagem tinha um monte de pessoas lindas e maravilhosas mas todas de cara feia aí o imperador perguntou para as pessoas lindas mas de cara feia o imperador disse porque vocês estão assim e porque nós estamos enfeitiçados por uma bruxa nós somos todos pequenos e não conseguimos alcançar a árvore aí eles tenham medo de pegar aí o imperador disse eu pego a fórmula pra vocês e vocês terão que me arrumar roupas (...).
Enquanto, no texto de Vitor, o imperador soluciona astutamente seu problema, por meio de uma negociação, outros textos retrataram o personagem como uma figura ingênua, tola e bastante ridícula, em que a solução do problema da nudez envolve uma comicidade inerente. É o caso da narrativa da aluna Rayssa:
Ele ficou com muita vergonha na procissão mas ele seguiu em frente tinha uma árvore ele foi lá para pegar folha os vigaristas falaram ele é estúpido ele pegou as folhas e se cobriu e o imperador perguntou para o menino - você tem uma roupa para me emprestar e menino - não tenho (...)
O mesmo acontece no texto da Luanny, em que o recorte cômico da situação ganha ares aristotélicos, pois todas as peripécias vividas pelo imperador contribuem para, no final, sua vaidade e arrogância darem lugar ao vexame moral:
(...) veio um homem, murmurante em seu ouvido dizendo, você está nu, o imperador falou:
- O que eu?
O homem disse, o senhor mesmo.
- Mas eu um homem rico com trajes novos bonitos, não pode ser.
Mas senhor todo mundo está vendo o senhor nu, vá para seu castelo e coloque seus trajes bonitos.
O imperador falou:
- Eu vou, porque tenho uma grande festa para ir.
(...)
Chegando a festa o imperador estava se achando com suas lindas roupas (...) ele viu uma linda moça e a convidou para dançar com ele, e a moça aceitou. 
O imperador ficou encantado pela moça ficaram conversando e dançando a festa toda, quando deu meia-noite, ele ficou nu e a moça saiu de perto dele e ele querendo saber o que estava acontecendo (...) foi até a mesa da moça e rapidamente pediu desculpa e querendo saber o que estava acontecendo, a moça disse:
- Você está nu, no meio da festa o imperador disse mas eu estou vestido com lindo traje a moça falou:
- Se olha no espelho e você vai ver, então o imperador foi até o espelho e viu ele nu. Ele falou:
- Meu Deus! Ele falou assustado eu sou terrivelmente feio.
De um modo bastante diferente, a narrativa do aluno Josué insere uma sangrenta carga policial entre os personagens da história. Curiosamente, porém, propõe um final em que prevalece um otimismo algo democrático, ficando para trás os elementos de personalidade negativos que tinham conduzido o império à crise passada:
Quando chegou no palácio foi para o armário e vestiu outro traje. E disse:
- Peguem os vigaristas e os vigaristas disseram:
Porque o imperador quer nos prender nós fizemos tão carinhosamente o traje para ele e os dois vigaristas tentaram fugir e conseguiram mataram 5 soldados e tentaram matar o rei não conseguiram, um foi preso outro conseguiu escapar então eles juntaram mais 8 soldados e foram para tentar matar o rei (...) dessa vez conseguiram (...) e o imperador tinha o o filho então esse filho seria o novo imperador ele falava que iria governar que nem o pai mas ele se achava diferente, então ele decidiu que iria governar mas que iria agradar o povo com sua governança bondosa, não iria ser safado, otário e burro e ele governou muitos anos até sua morte.
O aspecto formal dos textos, especificamente no que se refere ao uso dos adjetivos e advérbios que eu tinha solicitado, foi o que me conduziu a maiores reflexões. Isso porque, mesmo que muitos alunos tivessem usado corretamente as palavras pedidas (alguns até com bastante propriedade, como se pode ver nos exemplos acima), percebi que muitos textos estavam tomados de aplicações apressadas, imprecisas e erradas delas, como: "perdi toda a minha riqueza e fiquei malucamente"; "e os vigaristas burros deixaram afrouxadamente as cordas"; "mas estupidamente não se sentia mais pela verdade"; "ficou agradavelmente nada bem com aquela roupa". De fato, parecia que a minha consigna tinha tensionado a escrita dos alunos, de forma a extrair usos de adjetivos e advérbios de muitos cuja compreensão ainda não era suficientemente madura, resultando, da parte deles, em uma preocupação maior em tentar cumprir o comando, em detrimento da qualidade do texto e da consistência da narrativa. Penso, enquanto escrevo esse relato, que um procedimento mais adequado seria a escrita livre em um primeiro momento, para só depois fazer a análise linguística do conto ou ensinar sobre o gênero, baseando-se nos conhecimentos prévios e nas necessidades de aprendizagem dos alunos, diagnosticadas a partir de seus textos. Foi o que tentei fazer em outras ocasiões que em breve contarei aqui no blog.

Mas vocês devem estar me perguntando: esse projeto não era sobre propaganda? E era mesmo! Por isso, o que propus para finalizar o trabalho com o conto de Andersen, como uma prévia do que eu almejava como objetivo geral, foi que os alunos, dividindo-se em equipes, imaginassem e desenhassem sua proposta de traje do imperador em cartolina, para, a seguir, fazermos uma exposição pública, em que os demais alunos escolheriam, pelo voto, a melhor concepção. Foi um dos momentos mais animados de todo o projeto, com muitos alunos realizando obras extraordinárias, e com muita participação de todos da escola na exposição, com direito até a organização de torcidas! Infelizmente, não me lembro se registrei e perdi as fotos dos trabalhos, ou se simplesmente não registrei. Não é a primeira vez que peco por desleixo de registrar esses momentos... mas juro que estou tentando melhorar nisso 🙈 De todo modo, fica a descrição do que foi feito, como um exemplo de alternativa para construir elos entre o literário e o prático.

E assim termina essa segunda parte do relato! O que você achou das produções escritas dos alunos? Que outros textos relacionados à publicidade você conhece? O que você faria diferente de mim? Deixem seus comentários... e aguardem a parte 3!

Para saber mais sobre letramento literário, pode começar pela resenha ao livro de Rildo Cosson dedicado ao assunto.
Sobre estratégias de leitura, uma boa dica é o livro digital organizado pelo Renilson Menegassi.
Dois capítulos sobre análise linguística são encontrados no livro organizado pelos professores Menegassi e Márcia Ohuschi.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

O produto perfeito para o seu problema! Lendo e criando gêneros da publicidade - Parte 1

Hoje começo a contar sobre um trabalho que venho pensando e aprimorando com as turmas de 6º ano do Fundamental da Escola Municipal Rotary, em Belém, desde 2015. Em suas origens, a ideia trazia um objetivo geral: promover uma feira de produtos imaginários, criados pela turma para resolver problemas domésticos, escolares e comunitários levantados pelos demais alunos. Para tanto, eu previa que os alunos lessem, discutissem e criassem textos de gêneros da esfera da publicidade: questionários para fazer uma "pesquisa de mercado" e anúncios e propagandas, escritos e filmados, para vender os produtos criados a partir das demandas dos estudantes.

Esse objetivo geral, de fato, ainda não foi concretizado, principalmente devido ao descompasso entre o planejamento e o tempo disponível, que é um problema constante pra quem trabalha sem um currículo rígido. Porém, as produções feitas pelos alunos no contexto desse projeto já formam um conjunto muito interessante, que vale a pena examinar. Nesse relato, vou me ater mais aos registros do trabalho feito em 2017, que reúne o maior e mais bem acabado conjunto de produções. E, como foi um projeto de vários meses e com muitos momentos interessantes, dividi o relato em uma série de três ou quatro postagens. Me acompanhem, que não vão se arrepender!

A primeira tarefa proposta no projeto foi a leitura de anúncios em jornais e revistas. Na escola, temos a sorte de ter uma biblioteca com um bom acervo de jornais e revistas impressas e a professora Nádia Cordovil, uma profissional muito acessível e proativa. Assim, pudemos fazer uma aula para os alunos manusearem esses materiais e coletarem anúncios que achassem interessantes.

Observei que havia uma certa disparidade no conhecimento prévio dos alunos: enquanto muitos reconheciam de imediato e sabiam onde encontrar os anúncios nas revistas e jornais, outros demoravam a entender no que consistia o gênero, e mostravam reportagens, entrevistas e outros tipos de enunciado, julgando serem anúncios. Uma distinção bem difícil de fazer foi entre anúncios publicitários do tipo que basearia nosso trabalho, aqueles em que era mostrado apenas um produto, exaltando-se suas qualidades, e os anúncios que chamei de "tipo catálogo", em que se listavam produtos em oferta de um determinado vendedor, usado principalmente por supermercados e atacadistas. Mesmo pesquisando depois, não achei referências que baseassem essa distinção. Isso mostra o quanto é essencial adotarmos uma postura pesquisadora, e não reprodutora, em nosso trabalho! A realidade é complexa, as teorias incompletas, e não podemos dar aos alunos a impressão de que tudo já está dado, mas incentivá-los a perceber e investigar o novo.

Ao final, foram coletados cerca de 30 anúncios. Importante destacar que não arrancávamos as partes das revistas e jornais que continham os textos, mas fotografávamos as páginas, usando o meu celular e os dos próprios alunos. Isso permitia que fosse preservado o material para outras pesquisas e também facilitava depois a visualização dos anúncios em outras mídias.




Alguns dos anúncios pesquisados pelos alunos em revistas

Os textos pesquisados, bastante diversificados e cheios de recursos legais de perceber e refletir sobre, foram organizados por mim em uma apresentação de slides, chamando atenção para os componentes verbais (slogans, argumentos, descrições, figuras de linguagem) e visuais (imagens, ilustrações, logotipos) que compunham o texto. Muitos alunos participaram da aula em que visualizamos esses slides, de forma até surpreendente, respondendo perguntas e interpretando informações dos textos de forma muito inteligente.



 Exemplo de apresentação de slides utilizada para a interpretação dos anúncios. Software: LibreOffice Impress.

Além da leitura e da interpretação dos anúncios, pedi também aos alunos que fizessem um exercício que chamei de escrita matricial, em que se toma um enunciado verbal de um determinado anúncio e se retira a maior parte das palavras significativas, resultando numa espécie de matriz com lacunas a partir da qual o aluno deve criar um outro enunciado. O exercício pode parecer artificial e contrário ao paradigma interacionista, e de fato é, mas julgo ser um passo importante na aquisição e na prática de tipos genéricos com composição e estilo marcados, como é o caso dos gêneros da publicidade, em especial para alunos com nível de leitura relativamente baixo. Assim, ao longo do exercício, fui explicando em termos mais metalinguísticos algumas características dos enunciados dos anúncios, como o uso do imperativo, a topicalização a partir do nome do produto, a adjetivação e adverbialização valorativa, dentre outros.

Exemplos de exercício de escrita matricial


A seguir, propus um exercício a partir das instigantes fotocolagens de Grete Stern e de outros artistas. Cada aluno escreveria um texto de anúncio baseado na imagem apresentada. A tarefa fez surgir diversos textos coerentes e interessantes, mas alguns se destacaram, pelo bom humor e pelo inusitado da sugestão. O aluno Josué, por exemplo, associou a montagem abaixo à cárie e aos problemas dentários, escrevendo um anúncio de pasta de dente que protegeria contra esses problemas.


Fotocolagem de Grete Stern, 1904

E assim foi o início do nosso trabalho com propaganda! O que eu poderia destacar? Com certeza, a tentativa que fiz de atar, de forma suave e compreensiva, o contato com exemplares reais, concretos, do gênero estudado, por meio da pesquisa em revistas e jornais, e a abertura para a fantasia, para a criatividade extracotidiana, por meio do exercício com as fotocolagens. Acredito que transitar entre esses dois polos é fundamental em todo o trabalho com a linguagem na escola. Afinal, como diz a frase de Einstein que juntei à apresentação pessoal que postei aqui como atividade do curso de informática, "a imaginação é mais importante que o conhecimento". É o que a gente vai ver também na segunda parte dessa série, em que narro como a literatura entrou na parada. Em breve posto por aqui. Aguardem!

Pequena reflexão...

A forma como muitos alunos e professores veem a escola ainda hoje: um lugar de conflito, controle, medição de forças, medo e silenciamento. A demanda difusa por mais "autoridade do professor", que hoje ganha força em parte da sociedade, supõe uma cultura anacrônica de vigilância e violência, incompatível com as boas práticas pedagógicas que vem sendo popularizadas.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Apresentação

Uma das tarefas do curso de informática educacional que estou fazendo foi criar uma pequena apresentação pessoal usando o software Apresentações Google, e compartilhá-la no blog. Então, aí vai. Espero que gostem!

sábado, 15 de setembro de 2018

Tráfico de drogas na Amazônia: polêmicas e descobertas na EJA

Parte da minha turma de 2015 da EJA. Da esquerda para a direita: Yasmin, Anderson, Elilson, Hellen, Mariely, eu, Aparecida, Tiago e Luiza


2015 foi um ano especial no meu trabalho com a Educação de Jovens e Adultos. Após um 2014 meio esquisito, em que minhas propostas, talvez por terem ainda pouca consistência, não pareceram ser muito bem recebidas pelos alunos, dediquei-me desde o início do ano letivo seguinte a um planejamento mais aprofundado, tentando estabelecer na aula de Português um aprendizado contínuo a partir da leitura, escrita e debate sobre temáticas que considerava relevantes para a formação dos estudantes.

Um dos temas que povoava meus pensamentos era o tráfico de drogas. Eu já tinha estudado um pouco sobre o assunto, e conhecia algumas questões envolvidas nele: a relação com a geografia da cidade, com a violência urbana, o impacto do tráfico na superlotação presidiária, as terapias de viés religioso para o vício em drogas, o movimento pela legalização da maconha... esperava que tudo isso viesse à tona no diálogo com os alunos, especialmente por estar em uma escola em bairro de periferia, onde as drogas são presentes na vida ou no imaginário de praticamente todos os moradores.

Para iniciar as discussões, escolhi um artigo científico do professor Aiala Colares, da Universidade do Estado do Pará, intitulado "Do Global ao Local: A geografia do narcotráfico na periferia de Belém". Era de se esperar que, por ser um gênero de uma esfera comunicativa distante dos alunos e extremamente monitorado, a leitura encontrasse algumas dificuldades, devendo ser feita de forma mais dirigida por mim. Assim, ao longo de várias aulas, fomos lendo o artigo, ora em conjunto, ora individualmente, mas sempre tentando discutir e esclarecer pontos obscuros, bem como adotar uma postura de acolhimento e escuta das elaborações dos alunos a respeito do conteúdo do artigo, por mais que não fossem totalmente corretos.

Ao fim da leitura, propus aos alunos a primeira atividade de escrita: a socialização do conteúdo estudado com alunos de outras turmas e funcionários da escola. Para tanto, contaríamos com o apoio da professora Myrna Reis e do Laboratório de Informática da escola para produzir infográficos utilizando os recursos do site Easelly, que contém um software gratuito de criação de infográficos. Depois, faríamos fotocópias das produções dos alunos e distribuiríamos pela escola como panfletos, conversando com as pessoas e dando breves explicações sobre o tema estudado e o trabalho realizado. Assim, o trabalho integrava a leitura e a escrita de um texto multimodal, permitindo aos alunos integrar texto, imagem, cores e disposição das informações na tela, dialogando assim com a cibercultura e com a linguagem da internet, com a qual eles vêm cada vez mais se familiarizando.

Antes de começar o trabalho no Laboratório, lemos alguns infográficos coletados na internet, e apresentei aos alunos as características e as diversas possibilidades do gênero.



Alguns dos infográficos lidos com os alunos em sala antes da atividade prática

O trabalho no Laboratório foi organizado com os alunos em duplas ou trios, e dividido entre um primeiro momento de exploração das ferramentas do site, em que os alunos ficaram livres para visualizar as imagens e recursos disponíveis e testar como eles funcionavam na tela do infográfico, e um segundo momento em que os recursos deveriam ser usados para a produção do infográfico sobre os temas abordados pelo artigo, que, conforme estabelecemos previamente, seriam: os atores sociais do tráfico de drogas, a rede internacional de tráfico e a gentrificação, fenômeno urbano responsável pelo estabelecimento de lócus privilegiados para a difusão do tráfico. Ao longo de todo o processo, eu orientava e dava sugestões às equipes, mostrando, com meu computador pessoal e um projetor, como utilizar a interface do Easelly.

A atividade revelou, é verdade, que alguns alunos tinham adquirido mais domínio do assunto do que outros ao longo das aulas, bem como uma parte da turma ganhou intimidade com a ferramenta de informática mais rápido do que outros, o que levanta problemas de ordem didática e da própria organização do tempo escolar. Mesmo assim, o resultado foi muito interessante, manifestando a forma de cada aluno de se apropriar do conteúdo, alguns mais atentos ao texto do artigo, outros mais livres para parafrasear de acordo com sua experiência de vida e seu repertório linguístico; alguns com uma crítica mais exuberante, retratada nas imagens e termos escolhidos, outros com uma perspectiva de mais neutralidade.



Infográficos produzidos pelos alunos. Software: Easelly.


É bom ressaltar que o Easelly, além de dar a opção de download do arquivo criado nas extensões mais usuais, como .jpeg e .pdf, também armazenava os arquivos em nuvem no próprio site. Como os alunos produziram os infográficos logados em uma conta criada por mim, eu podia acessar as produções de casa, fazer a edição final e imprimir. Foi o que fiz, tirando várias cópias de cada um, que os alunos usaram depois para fazer a panfletagem na própria escola.

O tema das drogas visivelmente ainda dava pano pra manga. Eu e a professora Daniella Briaca, de Artes, percebemos isso, e resolvemos integrá-lo a uma programação da escola em que os alunos fariam apresentações culturais: a partir de um texto escrito por ela e finalizado por mim, fizemos uma peça de teatro que apresentava algumas questões envolvidas no problema. A história era a de um jovem usuário de drogas, que, após diversos conflitos familiares e envolvimento com os traficantes, acabava executado pela polícia. O processo de ensaio foi uma das experiências mais marcantes para mim, pois os alunos se envolveram com muito entusiasmo, e o espetáculo se destacou no dia da culminância dos trabalhos, sendo muito elogiado. Infelizmente os poucos registros feitos no dia se perderam...

Mas ainda havia espaço para mais. E terminamos o ano trabalhando com mais um evento, que ofereceria ainda uma outra perspectiva sobre a questão das drogas aos alunos: uma mesa-redonda com o tema "Legalização ou proibição da maconha?", em que, convidados por mim, um militante pró-legalização e um psicólogo contrário à reivindicação debateriam e responderiam perguntas. A mesa seria mediada pelo aluno Anderson, numa tentativa de dar protagonismo aos alunos, além de proporcionar o trabalho com mais uma forma de interação pela linguagem.

Para convidar a comunidade para o dia do evento, propus aos alunos, inspirado em um vídeo publicitário de um programa de televisão, a criação de um vídeo-convite, que seria mostrado na escola nos dias anteriores ao da mesa, podendo também ser compartilhado via redes sociais e aplicativos de mensagem. Nessa tarefa os alunos também mergulharam de cabeça. Foi interessante perceber como as propostas irreverentes de uns e mais conservadoras de outros se encaixaram muito bem no texto do vídeo, construído coletivamente, e como essas diversas posições encontradas entre os alunos sobre o tema puderam ser acolhidas pela proposta. Não obstante nossos poucos recursos de gravação e edição, o vídeo foi finalizado, com cada aluno escolhendo um ambiente da escola para filmar sua parte, e a faixa "Cine Trash", da banda de heavy metal belenense Madame Saatan, fornecendo a trilha sonora perfeita.


Vídeo-convite produzido com alunos. Software: Windows Movie Maker.

Foi engraçado, e ao mesmo tempo preocupante, o conservadorismo com que a iniciativa foi recebida por parte da coordenação pedagógica e pela direção, que manifestaram preocupação com o debate da temática e me consultaram repetidamente falando do receio de estimular o consumo de drogas na escola, visto que já havíamos tido problemas relacionados a isso alguns meses antes. Mas as devidas (ou as possíveis) explicações foram dadas, e a mesa-redonda foi realizada no dia 11 de dezembro de 2015, na escola, com participação de todos os alunos da EJA e de professores e funcionários da escola, além de alguns convidados externos trazidos pelos debatedores, incluindo até policiais e estudantes universitários. O debate transcorreu animadamente, com muitas participações e perguntas, embora, para mim, um legalizacionista convicto, o professor responsável por defender a descriminalização tenha pecado por adotar um discurso focado excessivamente em aspectos filosóficos e sociopolíticos da questão e pouco nas consequências práticas, o que foi percebido também pelos alunos, enquanto o psicólogo desde o início se comunicou com extrema clareza e com uma retórica simples e eloquente, angariando, ao final da noite, a concordância de muitos dos presentes.

Vou ficar devendo o vídeo com alguns trechos do debate, pois, apesar de o ter salvo em meus arquivos, são muito poucos e a qualidade ficou bem baixa, então nunca me animei para editá-lo. Instrumentos mais adequados para o registro só entraram em minha vida um pouco depois dessa época. Mas creio ter dado uma boa ideia do que foi o trabalho. Ressalto, por fim, o enorme potencial que tem para o envolvimento e o aprendizado dos alunos um trabalho com projetos ou temas geradores, que proporcionam um planejamento a longo prazo, acomodam conteúdos escolares diversos e de várias disciplinas, além de possibilitarem o aprofundamento dos debates e da compreensão dos assuntos, muito necessário em uma perspectiva de educação intrinsecamente ligada à vida democrática.

O que achou? Qual sua opinião sobre os assuntos debatidos com os alunos? Que sugestões daria para futuras abordagens desse tema e de outros? Deixa nos comentários!

Para saber mais sobre multimodalidade, acesse o texto de Roxane Rojo sobre gêneros multimodais.
Para conhecer melhor a perspectiva de ensino de Português pautada nos gêneros discursivos, recomendo o artigo da professora Lopes-Rossi.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Discurso no Prêmio Professores do Brasil 2017

Saiu hoje o resultado estadual da 11ª edição do Prêmio Professores do Brasil, uma iniciativa do Ministério da Educação e de instituições parceiras que vem premiando relatos de prática de professores que contribuem significativamente para as práticas pedagógicas no país. Estou muito feliz com o 1º lugar obtido por Adriane Gisele e Lília Melo, duas professoras amigas que têm muito a nos ensinar!

No ano passado, tive a alegria de vencer o prêmio, nas etapas estadual e regional, na categoria Ensino Fundamental 6º ao 9º ano, com o relato intitulado "Festa solidária: leitura, escrita e intervenção na comunidade". Mais detalhes desse projeto estarão em breve aqui no blog!

Para não passar em branco, compartilho aqui o vídeo do discurso que fiz na cerimônia de premiação estadual, representando os professores premiados a convite da equipe organizadora. É um testemunho de minhas convicções sobre educação, que, de alguma forma, estarão contidas em todos os relatos feitos aqui.




Deixa nos comentários o que achaste dessa fala! E vamos trocando ideias sobre educação...

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Casos de Sherlock Holmes: da leitura dos contos à escrita de dossiês

Lá pela metade de 2016, eu estava numa vibe de ler literatura com os alunos da Educação de Jovens e Adultos. Na época, eu ainda não tinha estudado nada sobre recepção, experiência estética, leitura cursiva e texto de leitor, temas em que me aprofundei só mais tarde, escrevendo a dissertação de mestrado. Mas tinha uma espécie de intuição de que seria muito motivador compartilhar com os estudantes textos que eu mesmo gostava muito, expectativa reforçada por algumas experiências que já tivera nos anos anteriores.

Nesse contexto, um personagem povoava meus pensamentos: o detetive Sherlock Holmes. Desde a adolescência eu me fascinara pelos romances e narrativas longas de meu xará Arthur Conan Doyle. Assim, dediquei algumas noites a (re)ler os livros que tinha e os que não tinha, por meio do maravilhoso blog Mundo Sherlock, procurando duas narrativas curtas que melhor reunissem o retrato das habilidades brilhantes do detetive, os enigmáticos personagens envolvidos nos crimes e as reviravoltas surpreendentes da trama. E foram exatamente dois textos que, ao final da leitura, me fizeram pensar "É esse!": O pincenê dourado, na tradução de Hamílcar de Garcia publicada no Mundo Sherlock, e Black Peter, na tradução de Jorge Ritter, que consta da edição publicada em formato de bolso pela L&PM.

Em ambas as histórias, o crime investigado é um assassinato. Em O pincenê dourado, que elegi para ler na 3ª Totalidade, a vítima é Willoughby Smith, um jovem redator que é encontrado morto no escritório do professor Coran, seu patrão, descobrindo-se como única pista do assassino um pincenê dourado feminino, esquecido no chão. Já em Black Peter, escolhido para ser lido na 4ª Totalidade, o alvo do crime é Peter Carey, um ex-capitão de navio baleeiro, conhecido pelo mau humor e pela maldade com que tratava seus subordinados e sua família, que é encontrado com um arpão atravessado em seu peito.

Ao planejar como seria o trabalho com os alunos, inspirei-me em um outro tipo de livro que também lia na juventude: as obras que colocavam o leitor como co-investigador, lançando perguntas e enigmas que precisavam ser solucionados para prosseguir na leitura. Ao mesmo tempo, eu queria ler o texto na íntegra com eles, seguindo o que estudara na faculdade a respeito de não "picotar" os textos, criando situações de ensino artificiais e negando aos alunos o acesso à obra integral. Decidi, então, dividir o texto em duas partes, apresentando inicialmente aos alunos somente a primeira e deixando a solução do mistério na segunda. Dessa forma, eu pediria a eles que, a partir da escrita e da troca de depoimentos, relatórios policiais e cartas, propusessem uma solução para o mistério do conto que a outra turma estava lendo.

A leitura e a discussão da primeira parte dos contos foi feita ao longo de quatro aulas, nas quais foi visível o interesse dos alunos pelos textos. Eles faziam perguntas, questionavam as posições dos personagens e riam frequentemente. Eu tentava intervir o mínimo possível e estabelecer um ritmo dinâmico de leitura, que atendesse às características do gênero e às expectativas naturalmente criadas pelos estudantes. Mais tarde, o aluno Edinelson me confidenciaria que aquele tinha sido o melhor texto que já tinha lido, o que me parecia ser um sentimento geral.

Chegamos, por fim, à escrita dos textos a partir da obra, etapa em que deterei mais minha análise devido ao desempenho excelente de vários alunos. Os depoimentos, relatórios e cartas criados, além de mostrarem o bom nível de escrita dos alunos e as necessidades de aprendizado de cada um, foram exemplos do que eu descobriria mais tarde serem "textos de leitor", ou seja, a operação em que "o leitor se apropria do texto: ele o reconfigura à sua imagem, completando-o com elementos oriundos de sua história pessoal e de sua cultura ou, inversamente, deixando-lhe lacunas, apagando tal aspecto que não atraiu muito a sua atenção", conforme a formulação de Annie Rouxel no artigo Ensino da literatura: experiência estética e formação do leitor. Pra não me alongar muito, limito os comentários deste texto aos depoimentos, deixando para outro momento os demais gêneros trabalhados.

Uma aluna, por exemplo, que compôs o depoimento da personagem da esposa de Peter Carey, escreveu:

Na manhã seguinte uma das criadas notou que a porta do “camarote” estava aberta e ao meio-dia eu fui ver o que tinha acontecido espiando pela porta aberta eu vi uma cena que me deixou lívida. Meu marido morto com um arpão atravessado, entrei em desespero. Por mais que ele me batesse e me desse medo, era meu marido.


Podemos observar que a aluna retrata a cena, que consta da obra, da descoberta do cadáver de Peter Carey, acentuando o terror que o fato causou na esposa. Porém, o acento de pesar introduzido pela oração "entrei em desespero", bem como pela construção subordinada "por mais que ele me batesse e me desse medo, era meu marido", são acréscimos originais da aluna, que não são vistos no conto de Conan Doyle. Assim, podemos dizer que a aluna recria a relação entre Peter Carey e a esposa dentro dos parâmetros da sua visão, mediada socialmente, de como deve ser uma relação de casamento, em que o respeito e a consideração devem estar presentes, mesmo que o comportamento do homem seja deplorável, como era o caso.

Outro aluno ficou responsável pela escrita do depoimento do pedreiro Slater, um vizinho de Peter Carey que, no conto, vê o semblante de um homem desconhecido na janela do capitão dias antes do assassinato. O resultado, muito divertido de ler, mostra a recriação pelo aluno do acento expressivo da fala do pedreiro, que não aparece falando diretamente no conto. A voz de um operário das classes populares, que domina a gíria local e parece excitado, nervoso ao depor em um caso envolvendo seus vizinhos, repetindo a mesma informação várias vezes, salta aos olhos:

Parei, vi aquele negócio estranho, era um quadro brilhando entre as árvores. Eu lembro como se fosse hoje que era um homem claramente visível atrás da cortina do “camarote” do Peter. Mas eu tenho certeza que não era a de Peter Carey, eu conhecia bem. Ele era um homem só, vivia bêbado, tinha barba grande e ele era como um capitão. E o homem que eu vi era homem feio, barba encrespada e curta. Eu tinha tomado uma pinga, mas eu tava enxergando bem sim, eu sei que eu vi, não era o capitão não. Eu sei que o crime foi na quarta, mas o homem podia ter voltado lá. Eu não tô doido não, eu sei o que eu vi, rapaz.

A mesma recriação vemos no depoimento do vigário da paróquia da região do crime, escrito por outro aluno. O tom contido, penitente, mais culto do que os outros, e o acento valorativo católico aparecem com muita clareza, criando belas imagens:

Mas sabe, sr. Hopkins, sentia pena da mulher e filha do falecido. Sempre por fazer orações demais para ajudá-lo, muitas lágrimas em suas orações e contudo muita fé também. E pelo visto nosso Deus permitiu que suas lágrimas secassem, mesmo com um fim trágico.

Os depoimentos escritos pela 3ª totalidade para o caso de O pincenê dourado também trouxeram boas produções. Destaco o texto da aluna que encarnou o personagem da governanta, sra. Marker:

Quando, de repente, ouvi um grito horrível que paralisou todo meu corpo, não conseguia me mover de tanto pavor que nem consegui identificar se era de homem ou de mulher, andei o mais rápido que pude, para ver o que aconteceu.
Quando chego na porta do escritório, encontro aquela cena horrível que nunca vou esquecer, Susan com aquele jovem nos braços, o sangue jorrando, uma cena triste de se ver, aquele jovem tão adorável, tão cheio de vida, inerte, fiquei apavorada por alguns minutos. (...)

É visível que a aluna reinventa, com exuberantes acréscimos de dramaticidade, o momento da descoberta do cadáver. Informações importantes que constam na obra, como a menção à incapacidade de distinguir o sexo da voz que gritou e a descrição da cena do crime, se misturam a dados subjetivos da personagem, como "paralisou todo meu corpo", "cena horrível que nunca vou esquecer", "jovem tão adorável, tão cheio de vida". Podemos afirmar que a aluna materializa em seu texto a tensão e a emoção experimentadas no momento da leitura, uma experiência sentimental que contribui decisivamente para a qualidade de seu texto.

Essa foi apenas a primeira atividade que desenvolvi pautada na leitura literária e na escrita de textos de leitor. Muitas outras ainda serão postadas aqui, assim como mais referências e autores importantes que abordam a temática. Mas desde já convido todos os professores, não apenas de Português, a imaginar e propor a seus alunos experiências como essa. Dedicar bastante tempo de aula para ler literatura, discuti-la e produzir textos a partir dela abre diversos caminhos para a nossa prática. Vale a pena experimentar!

Agora quero saber o que você achou. Que outras possibilidades a atividade oferece? Você já teve alguma experiência de leitura e escrita marcante com seus alunos? Deixa um comentário aí embaixo, e compartilha esse post!


Primeiras palavras

Sejam bem-vindos ao blog "Leitura & Escrita na Escola"!

Neste espaço, pretendo divulgar algumas experiências exitosas (ou pelo menos interessantes) que tive em meu trabalho como professor de Português da rede municipal de ensino de Belém - Pará, atividade que exerço desde 2014.

O objetivo inicial é amadurecer minha própria prática por meio da escrita reflexiva dos relatos, mas espero também inspirar outros professores que desejem inovar e propor novos caminhos aos seus alunos. Por isso, os relatos não virão muito carregados de referencial teórico, e o estilo será mais subjetivo do que acadêmico.

Conheçam mais da minha vida acadêmica e de meus outros trabalhos e interesses nos links postados ao lado, na aba "Quem escreve".

Um abraço!