Esse objetivo geral, de fato, ainda não foi concretizado, principalmente devido ao descompasso entre o planejamento e o tempo disponível, que é um problema constante pra quem trabalha sem um currículo rígido. Porém, as produções feitas pelos alunos no contexto desse projeto já formam um conjunto muito interessante, que vale a pena examinar. Nesse relato, vou me ater mais aos registros do trabalho feito em 2017, que reúne o maior e mais bem acabado conjunto de produções. E, como foi um projeto de vários meses e com muitos momentos interessantes, dividi o relato em uma série de três ou quatro postagens. Me acompanhem, que não vão se arrepender!
A primeira tarefa proposta no projeto foi a leitura de anúncios em jornais e revistas. Na escola, temos a sorte de ter uma biblioteca com um bom acervo de jornais e revistas impressas e a professora Nádia Cordovil, uma profissional muito acessível e proativa. Assim, pudemos fazer uma aula para os alunos manusearem esses materiais e coletarem anúncios que achassem interessantes.
Observei que havia uma certa disparidade no conhecimento prévio dos alunos: enquanto muitos reconheciam de imediato e sabiam onde encontrar os anúncios nas revistas e jornais, outros demoravam a entender no que consistia o gênero, e mostravam reportagens, entrevistas e outros tipos de enunciado, julgando serem anúncios. Uma distinção bem difícil de fazer foi entre anúncios publicitários do tipo que basearia nosso trabalho, aqueles em que era mostrado apenas um produto, exaltando-se suas qualidades, e os anúncios que chamei de "tipo catálogo", em que se listavam produtos em oferta de um determinado vendedor, usado principalmente por supermercados e atacadistas. Mesmo pesquisando depois, não achei referências que baseassem essa distinção. Isso mostra o quanto é essencial adotarmos uma postura pesquisadora, e não reprodutora, em nosso trabalho! A realidade é complexa, as teorias incompletas, e não podemos dar aos alunos a impressão de que tudo já está dado, mas incentivá-los a perceber e investigar o novo.
Ao final, foram coletados cerca de 30 anúncios. Importante destacar que não arrancávamos as partes das revistas e jornais que continham os textos, mas fotografávamos as páginas, usando o meu celular e os dos próprios alunos. Isso permitia que fosse preservado o material para outras pesquisas e também facilitava depois a visualização dos anúncios em outras mídias.
Alguns dos anúncios pesquisados pelos alunos em revistas
Os textos pesquisados, bastante diversificados e cheios de recursos legais de perceber e refletir sobre, foram organizados por mim em uma apresentação de slides, chamando atenção para os componentes verbais (slogans, argumentos, descrições, figuras de linguagem) e visuais (imagens, ilustrações, logotipos) que compunham o texto. Muitos alunos participaram da aula em que visualizamos esses slides, de forma até surpreendente, respondendo perguntas e interpretando informações dos textos de forma muito inteligente.
Exemplo de apresentação de slides utilizada para a interpretação dos anúncios. Software: LibreOffice Impress.
Além da leitura e da interpretação dos anúncios, pedi também aos alunos que fizessem um exercício que chamei de escrita matricial, em que se toma um enunciado verbal de um determinado anúncio e se retira a maior parte das palavras significativas, resultando numa espécie de matriz com lacunas a partir da qual o aluno deve criar um outro enunciado. O exercício pode parecer artificial e contrário ao paradigma interacionista, e de fato é, mas julgo ser um passo importante na aquisição e na prática de tipos genéricos com composição e estilo marcados, como é o caso dos gêneros da publicidade, em especial para alunos com nível de leitura relativamente baixo. Assim, ao longo do exercício, fui explicando em termos mais metalinguísticos algumas características dos enunciados dos anúncios, como o uso do imperativo, a topicalização a partir do nome do produto, a adjetivação e adverbialização valorativa, dentre outros.
Exemplos de exercício de escrita matricial
A seguir, propus um exercício a partir das instigantes fotocolagens de Grete Stern e de outros artistas. Cada aluno escreveria um texto de anúncio baseado na imagem apresentada. A tarefa fez surgir diversos textos coerentes e interessantes, mas alguns se destacaram, pelo bom humor e pelo inusitado da sugestão. O aluno Josué, por exemplo, associou a montagem abaixo à cárie e aos problemas dentários, escrevendo um anúncio de pasta de dente que protegeria contra esses problemas.
E assim foi o início do nosso trabalho com propaganda! O que eu poderia destacar? Com certeza, a tentativa que fiz de atar, de forma suave e compreensiva, o contato com exemplares reais, concretos, do gênero estudado, por meio da pesquisa em revistas e jornais, e a abertura para a fantasia, para a criatividade extracotidiana, por meio do exercício com as fotocolagens. Acredito que transitar entre esses dois polos é fundamental em todo o trabalho com a linguagem na escola. Afinal, como diz a frase de Einstein que juntei à apresentação pessoal que postei aqui como atividade do curso de informática, "a imaginação é mais importante que o conhecimento". É o que a gente vai ver também na segunda parte dessa série, em que narro como a literatura entrou na parada. Em breve posto por aqui. Aguardem!





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