domingo, 17 de março de 2019

Esticando histórias - uma forma de ensinar a criatividade na escrita

Estou de volta! Passaram-se alguns meses em que estive pensando e criando coisas novas, na escola e em outros lugares, e por isso não consegui fazer postagens por aqui. Espero a partir de hoje conseguir manter alguma regularidade. Vamos lá!

Nas últimas postagens do blog, contei sobre o projeto da feira de produtos que venho desenvolvendo com alunos desde 2016. No interior desse trabalho, tivemos um momento que deixei de fora do relato, pois pretendia postá-lo depois. Trata-se de uma atividade que denominei Esticando histórias, pois seu objetivo era recriar uma das narrativas escritas pelos alunos como continuação do conto O traje novo do imperador, tornando os eventos da história mais complexos e intensificando os efeitos de sentido. Com isso, eu esperava evidenciar aos alunos a necessidade de não apenas expor linearmente os acontecimentos de uma narrativa, coisa que acontecia em muitos dos textos que eles tinham escrito, mas também explorar as variações de tensão, intenção e temperatura, tornando os textos mais interessantes de ser lidos.

Para isso, o texto escolhido foi o do aluno Erick, um bom exemplo de texto "plano", e, consequentemente, pouco atraente:
    Depois da procissão o imperador rapidamente pegou os vigaristas malandros e prenderam os vigaristas e o imperador agradeceu a criança inteligente que falou que ele estava pelado. Anos depois o imperador morreu numa batalha, os vigaristas o imperador matou e a criança virou o imperador.
A fim de melhor didatizar a ideia diante dos alunos, coloquei o texto do Erick em uma cartolina grande, dividido em cinco partes (ver imagem ao lado). Após uma leitura e uma conversa inicial sobre o texto, em que os alunos já percebiam a pouca consistência literária dele, formamos grupos na sala e cortamos separadamente cada uma das cinco partes do texto, ficando cada equipe responsável por reescrever a parte que lhe coubesse. A missão era "esticar" a história, desenvolvendo com mais profundidade os episódios propostos por Erick, de modo a formar, no final, uma única narrativa coerente composta das cinco partes "esticadas".

Nessa conversa inicial, também foi sugerido e acordado que as partes 3 e 4 trocariam de lugar uma com a outra, já que, como observaram alguns alunos, parecia estranho que a eliminação dos vigaristas pelo imperador viesse depois de sua morte. Feita a troca, os grupos puseram-se ao trabalho. Vamos ver e analisar a seguir o que cada um conseguiu fazer.

Reescrevendo a parte 1, os alunos chegaram ao seguinte resultado:

Depois da procissão o imperador rapidamente pegou os vigaristas malandros. Eles falaram que não tinham feito nada! Mas o imperador falou:
— Vocês acham que eu sou burro? e eles responderam:
— Não só acho como tenho certeza!
O imperador muito bravo falou:
— Já chega!!! Levem eles para o calabouço.
— Sim senhor! disse o guarda.
O guarda levou os dois!
No caminho os vigaristas deram um soco no guarda e correram, só que no caminho o imperador os encontrou, mas não conseguiu pegá-los. Só que quando eles iam sair do castelo a criança chegou com alguns guardas, e por fim os pegaram.

Nesse texto, percebe-se o excelente trabalho feito pelo grupo não apenas por detalhes formais, como o acréscimo de pontuação expressiva e os diálogos escritos no formato padrão, com travessão e dois-pontos. O mais importante é a criação de uma linha de eventos que alternam estados narrativos diversos. No início, há uma cena cômica, com direito a uso de discurso direto com uma irreverente resposta dos vigaristas diante da interpelação do imperador, o que demonstra a interpretação qualificada feita pelos alunos do conto de Andersen e da identidade "malandra" dos falsos costureiros. Logo depois, o discurso direto dá lugar à voz do narrador, que apresenta uma sequência de ação, na qual percebemos que as frases curtas e mudanças rápidas de foco tentam criar um clima de movimento e expectativa sobre a fuga ou a captura dos vigaristas. Como se não bastasse, os alunos conseguem conectar brilhantemente seu texto com a parte da narrativa que viria a seguir, quando colocam a criança aparecendo no final e sendo responsável pela captura dos bandidos. Objetivo cumprido com sucesso!

O grupo que ficou responsável pela parte 2 apresentou o seguinte texto:

E a criança só disse:
— Não acredite em nem uma palavra desses farsantes. E o imperador respondeu:
— Obrigado pela dica. E o imperador mandou prender os dois vigaristas e um conseguiu escapar da cadeia e o vigarista, se disfarçou de mordomo para colocar um veneno no vinho do imperador, um dos mordomos reconheceu o vigarista e ele disse:
— Não é você o vigarista?
O vigarista disse:
— Não, não sou eu!
Aí o vigarista saiu correndo, o mordomo falou para o imperador. E disse:
— Nossa vamos logo procurar ele!
disse o imperador, todos saíram de lá para procurar ele e ele encontrou numa floresta escura pegou ele e caiu uma roupa preta ele disse:
— Quem é você? disse o imperador:
Ele disse:
— Sou eu o imperador! O imperador tirou a capa com um barulho de suspense ele foi preso e acabou tudo ao normal.


Em primeiro lugar, nota-se nesse trabalho uma interpretação diferente da instrução dada por mim. Enquanto a equipe do texto 1 "esticou" a história mantendo do início ao fim a narrativa estruturada com base na situação proposta no texto do Erick, os alunos do texto 2 utilizam o mote do texto original (o agradecimento do imperador à criança) apenas nas primeiras linhas, criando, na sequência, outros eventos que não foram dados de antemão. A interpretação, a princípio, não parece problemática, uma vez que a liberdade criativa dos alunos deve ser bem-vinda num trabalho como esse; nesse caso, porém, ela parece ter levado os alunos a se perderem um pouco na escrita. O texto é visivelmente confuso, bagunçado e incoerente, principalmente no final, quando mal se consegue saber o que acontece e quem fala o quê. O recurso a uma espécie de trilha sonora da narrativa, quando o imperador tira a capa "com um barulho de suspense", que poderia ser uma divertida intrusão do audiovisual no texto escrito, acaba parecendo uma confissão do mal acabamento da produção. De todo modo, permitir que um texto como esse venha à tona é importante justamente para permitir que os alunos analisem e comparem as qualidades e defeitos de uns e de outros, gerando um aprendizado mais significativo.

A terceira parte (que trocou de lugar com a quarta) foi reescrita pela equipe da seguinte forma:

O imperador com tanta fúria decidiu botar eles na forca e fazer uma votação de quem queria eles vivos e de quem queriam eles mortos e a votação não foi muito justa pelo menos para o rei não foi, e a votação foram os vigaristas que ganharam porque quarenta e cinco eram pessoas que queriam a morte dos vigaristas e quarenta e nove eram pessoas que queriam a vida dos vigaristas e o rei ficou muito furioso com isso, mas na hora certa ele teve uma ideia e levou os vigaristas para o palácio e falou esta noite vocês vão dormir no quarto de hóspedes e quando chegaram lá não era um quarto de hóspedes era uma jaula de leões e tigres e o imperador fechou rapidamente a porta da jaula e disse com toda a falsidade não durmam bem seus otários e aí os leões e os tigres começaram a atacar os vigaristas e foi sangue para tudo quanto é lado e dessa vez os vigaristas não escaparam e morreram. Aí vocês me perguntam e o imperador? E os vizinhos? Ninguém ficou sabendo de nada? Eu só peço calma que eu vou contar. Depois disso o imperador ficou meio culpado com a morte dos vigaristas. E os vizinhos começaram a desconfiar do imperador: imperador cadê os vigaristas, eu não vi mais eles por aqui, o que será que aconteceu com eles, aí o imperador não resistiu e falou a verdade. Que eles tinham morrido pelo imperador e o imperador foi banido de sua cidade. E foi para o deserto e acabou morrendo de desidratação.

Dá pra perceber que, assim como no texto da parte 1, o grupo conseguiu estabelecer uma sequência coerente e potente de eventos, explorando as mudanças do personagem do imperador, que comete uma execução sádica, e, ao se arrepender, não é perdoado e morre simbolicamente no deserto, solitário e cheio de remorso. Os vigaristas assumem aqui uma característica inédita, ficando evidente que, apesar dos malfeitos, tinham conquistado uma certa estima da população, que os livra da morte e depois pergunta por eles, quando ficam muito tempo sem aparecer. O recurso da interlocução com o leitor, utilizado antes da metamorfose moral do imperador, parece uma forma inteligente de despertar curiosidade, jogando com o provável inconformismo do leitor ao ver a brutalidade e a injustiça prevalecer. Os autores chegam a "invadir" o evento da morte do imperador, que deveria estar sob a responsabilidade de outro grupo narrar; isso poderia ser considerado um erro diante do combinado inicial, porém, invertendo o ponto de vista, podemos pensar que foi um procedimento necessário para os alunos autores, uma vez que o problema moral enfrentado pelo imperador não se completaria com coerência a partir da estrutura proposta inicialmente pelo Erick, que dava um tom otimista e "limpo" ao fim da história. Daí a criação de um outro final, mais grave e reflexivo, o que os autores conseguiram fazer com excelência, a meu ver.

Vejamos agora o que fez a quarta equipe, responsável por narrar a morte do imperador numa batalha:

O imperador morreu numa batalha de 1895 anos, após uma traição com seu amigo fingia estar com o moço para o que desse e viesse, mas só que o moço não sabia que seu falso amigo era pilantra ele gostava do moço ele foi forçado trair o moço, porque [se]não iria morrer ficaram ameaçando o moço ficou muito triste de perder seu amigo que ele amava muito, na guerra foram muito contra o exército do moço o exército do moço foram 500 pessoas e o exército adversário foram 650.
 
Por mais que haja nesse texto um esforço de criar uma trama narrativa que conduz à morte do imperador (a traição de um amigo e a superioridade do exército inimigo), "esticando" de fato o que Erick propusera, basta uma comparação com os outros textos acima para perceber que este deixa a desejar em termos de qualidade literária. Parece que os novos dados criados pela equipe vão se sucedendo como em uma lista, sem uma elaboração consistente da linguagem. O imperador passa a ser estranhamente nomeado como "o moço", um vocativo que não encontra eco no texto original, podendo ter sido assimilado pelos alunos de outros textos já produzidos em outros contextos. O resultado mostra os limites do comando dado inicialmente por mim: os alunos, a rigor, de fato "esticaram" a história, pois criaram mais eventos e elaboraram com mais profundidade os conflitos, mas isso não implicou em um bom texto. Alcançar isso parece não estar relacionado apenas às solicitações do professor, mas principalmente à intuição e ao repertório de linguagem dos alunos. Daí a importância da etapa posterior, de leitura coletiva e comentário sobre os resultados alcançados, para que eles percebessem as diferenças entre os textos.

Por fim, vamos ver como ficou a quinta e última parte (em que a criança virava o imperador) reelaborada pela equipe:

Depois da morte do imperador, uns soldados acharam o decreto do imperador dizendo que a criança se tornaria o imperador.
No dia seguinte foram na casa da criança para anunciar que ele seria o novo imperador, ele ficou muito feliz quando falaram isso para ele.
Nessa época o garoto tinha 15 anos, mas o sacerdote não concordava que ele fosse o imperador, mas mesmo assim a criança aceitou ser o imperador, então os sacerdotes levaram a criança ao palácio, subiu as escadas do trono e sentou.
Depois de uns dias o imperador fez uma grande festa veio grandes reis e rainhas de grandes impérios, sua primeira ação foi fazer alianças com grandes reinos. Sua segunda ação foi mandar os melhores engenheiros, fazer uma estátua do ex-imperador. Depois de algumas horas o imperador se apresentou ao seu povo, dizendo que tudo ia mudar, ex:
— Todas as pessoas vão ser independente de mim, quem quiser embora do meu reino pode ir. Então o o imperador continuou reinando.


A meu ver, o texto cumpre, de uma forma que beira o protocolar, o subtexto da proposta do Erick, de um final feliz e luminoso, com as virtudes da criança, as mesmas que a tinham feito denunciar a nudez do imperador, agora servindo para dirigir com sabedoria e melhorar a vida de todos no reino. Dados que poderiam estabelecer algum tipo de conflito ou de obscuridade na trama, como a oposição do sacerdote, são citados apenas de passagem. Basta comparar, por exemplo, com o texto da parte 3, que tem diversos problemas formais mas que é bem mais interessante de ler, para notar a diferença. O uso da abreviação "ex:", uma forma muito usada em cópias e apostilas escolares, para introduzir o discurso direto, parece confirmar essa análise: os alunos, encarando o trabalho como uma demanda com pouco significado para eles, "denunciam" esse sentimento permitindo que recursos linguísticos presentes nas obrigações cotidianas da escola "invadam" a narrativa, mesmo não sendo apropriados para ela. Um belo tapa na cara de qualquer professor, não acham? De todo modo, a presença de um texto assim é positiva como testemunho dos diversos graus de envolvimento com o trabalho, permitindo inclusive que os alunos se autoavaliem.

Passados para cartolinas grandes que foram expostas na parede da sala, os textos resultantes foram alvo de crítica e debate, em que expus sumariamente algumas das análises feitas acima, e os alunos também levantaram percepções, apontando qualidades e problemas dos textos. Além da exposição dos textos em formato ampliado funcionar como legitimação das produções escritas, o fato dos textos serem debatidos, e não apenas avaliados pelo professor, permitiu a cada aluno elaborar seu próprio trabalho com a linguagem. Bom, pelo menos é o que eu espero... certas (muitas) coisas da aula de Português não se medem senão com o tempo, e, como sabemos, na escola raramente temos realmente tempo para apreciar o crescimento de nossos alunos...

Essa atividade ficou marcada com grande importância para mim. Senti que concretizei o que o professor Thomas Fairchild, no artigo Que escola é essa? Não existe objeto de ensino onde não haja um sujeito que ensine, postula como a necessidade de responder ao texto do aluno, deixando de evitar a palavra do outro, mantendo-a como um mero objeto impessoal de cumprimento de tarefas. Da mesma forma, Riolfi e Magalhães, em artigo, defendem que ensinemos aos alunos a "assumir sua diferença naquilo que escrevem", chamando atenção para os textos como modalizações de posições subjetivas, distantes da neutralidade. O material produzido pelos alunos oferece inúmeros dados não apenas para discussão em sala e elaboração de aulas, mas também para análise científica.

Não deixe de me contar o que você achou! Algum comentário a mais sobre os textos dos alunos? Tem alguma experiência legal de reescrita textual? Vai nos comentários 😎

domingo, 11 de novembro de 2018

O produto perfeito para o seu problema! Lendo e criando gêneros da publicidade - Parte 4

Esse é o quarto e último post da série em que estou narrando o trabalho desenvolvido a partir de gêneros da publicidade com alunos do 6º ano do Fundamental. Não deixe de ler a primeira parte do relato, aqui, a segunda aqui e a terceira parte aqui.

Depois de trabalhar com anúncios impressos e com textos literários relacionados ao tema da propaganda, chegava a hora de mexer com outro instigante gênero da publicidade: os anúncios em audiovisual. O que não me parecia difícil, dado a onipresença desse tipo de enunciado na mídia televisiva e a familiaridade dos alunos com ele.

De fato, desde o início as atividades dessa etapa foram muito bem recebidas por eles. Primeiro, como um aquecimento, levei para mostrar em sala vários exemplos de anúncios em vídeo, considerando produtos presentes no imaginário infanto-juvenil. Dois dos quais até hoje gosto muito são o comercial do chocolate Snickers e o anúncio da ração canina Pedigree Sachê. Durante a sessão dos vídeos, de forma semelhante ao que já tinha feito com os anúncios impressos, eu fazia comentários e perguntas, tentando apontar aos alunos aspectos importantes do gênero.

Como o objetivo seguinte era que eles produzissem vídeos de anúncios a partir de roteiros escritos, considerei que uma distinção essencial a se fazer era aquela entre o texto verbal e o texto visual dos anúncios, ou seja, entre o texto dito com palavras, seja por um locutor em off ou por personagens, e o "texto" depreensível da ação e da interação entre os personagens. A união dos dois textos, alternando trechos do verbal e do visual, originaria o roteiro. Importante ressaltar que, na falta de uma referência teórica mais específica sobre a qual me apoiar, essa nomenclatura foi proposta por mim mesmo. Vejo muitos trabalhos pedagógicos a partir do conceito de gênero se prenderem excessivamente a diretrizes e análises exógenas, e que por isso acabam perdendo o componente fundamental da intuição do professor e da sua própria experiência de leitor. Isso é um erro, pois muitas vezes são esses últimos componentes que se revelam mais importantes na mediação do aprendizado dos alunos sobre o gênero, e mesmo a metalinguagem acadêmica se torna nebulosa e pouco acessível para eles. Devemos usar a teoria, mas reconhecer seus limites e ir além deles!

Pois bem; para facilitar a compreensão dessa dicotomia, e ao mesmo tempo impulsionar a criatividade dos alunos, que seria essencial nas etapas seguintes, utilizei dois anúncios ficcionais oriundos do excelente programa humorístico Tá No Ar, da Rede Globo. Eles apresentavam o produto Sapos, que consistia literalmente de um grande sapo que a mãe colocava ao lado do filho durante o sono para protegê-lo de mosquitos, e o Insetizinho, um aerossol cuja finalidade era desmaiar o vizinho que não tinha cuidados com os criadouros do mosquito da dengue, de modo que você poderia entrar no quintal dele e acabar com os focos do mosquito. O Tá No Ar, programa que teve umas quatro temporadas na Globo, tem vários ótimos esquetes com anúncios de produtos fictícios e outras paródias da esfera televisiva. Recomendo o programa a todos os professores que pretendem mexer com isso!

O vídeo do Sapos, mais curto e simples, serviu para eu explicar inicialmente a distinção entre os textos verbal e visual e a consequente formação do roteiro, e o do Insetizinho, mais longo e complexo, foi mostrado aos alunos com a proposta de um exercício em duplas, em que um membro deveria registrar o texto verbal e o outro o texto visual, montando, a seguir, o roteiro.

Conduzido dessa forma, considerei o trabalho um grande sucesso: os alunos não apenas compuseram roteiros em sua maior parte corretos, como aplicaram os conhecimentos adquiridos posteriormente para escrever os roteiros de seus produtos, baseados na pesquisa de mercado feita anteriormente. Infelizmente, como já apontei no início desse relato, o gargalo de tempo disponível não permitiu que chegássemos ao final do projeto, de modo que nem todos esses roteiros foram transformados em vídeos, e apenas um teve a produção um pouco mais avançada: o do Multi D, um multiplicador de objetos, criado para atender à demanda levantada nos questionários sobre ter que "dividir as coisas com irmãos".

O resultado do vídeo, escrito, dirigido e estrelado pelos alunos, com a minha colaboração, foi, a meu ver, muito satisfatório. As meninas conseguiram utilizar vários componentes do gênero, como a locução, a criação de uma situação ficcional, a interação entre personagens, as expressões faciais, dentre outros, com propriedade, explorando o tema de forma bem humorada sem perder o vínculo com a realidade. Mesmo sem a realização da grande feira final, considero a propaganda do Multi D um símbolo de um trabalho bem sucedido, e uma inspiração para os próximos anos, em que terei a oportunidade de repetir e aperfeiçoar o projeto.


Vídeo de propaganda do produto Multi D. Software: Sony Vegas e Audacity.


E assim terminou o trabalho com o projeto Feira de produtos em 2017! Um processo longo, mas que ao final estava longe de dar sinais de cansaço, com os alunos e eu nos divertindo e mostrando muito prazer e interesse.

Deixa nos comentários o que você achou do trabalho! O que você faria diferente de mim? Que sugestões daria? Tem ou conhece alguma experiência legal com propaganda na escola? Vamos trocando ideias 😁

O produto perfeito para o seu problema! Lendo e criando gêneros da publicidade - Parte 3

Esse é o terceiro post da série em que estou narrando o trabalho desenvolvido a partir de gêneros da publicidade com alunos do 6º ano do Fundamental. Não deixe de ler a primeira parte do relato, aqui, e a segunda parte, aqui.

Nessa terceira parte do relato, exponho uma das etapas mais empolgantes do projeto da feira de produtos: a nossa pesquisa de mercado, ou, em outras palavras, o momento em que saímos pela escola coletando informações sobre os problemas enfrentados pelos alunos, para depois propor soluções imaginárias para eles por meio dos produtos inventados. Essa etapa foi pensada desde o início como forma de proporcionar aos alunos uma oportunidade concreta de interação social, fazendo com que os produtos atendessem às pulsões de fantasia próprias da idade deles, mas também fincassem pés no contexto socioeconômico real em que viviam. Assim, os enunciados produzidos passavam a ser enunciados concretos, e não apenas respostas a comandos e solicitações artificiais de um professor.

Desde 2015, quando as primeiras ideias desse projeto foram ensaiadas, eu estava convencido de que essa etapa precisaria de questionários ou de outro gênero semelhante, de modo a colher as informações dos demais alunos da escola, mas me perguntava como levar os alunos à compreensão de um gênero padronizado como o questionário, de modo que eles pudessem eles mesmos produzir a folha de questões, ou pelo menos ter uma participação significativa nela, sem tornar as atividades tediosas e mecânicas. Não sei se por sorte ou amadurecimento, naquele ano de 2017 em que foi feito o trabalho que agora estou narrando, eu tinha chegado a uma ideia que considerei muito eficiente: trabalhar os questionários por meio de jogos.

Os jogos sempre foram parte importante de meu trabalho. Eu mesmo sou um fã de joguinhos, principalmente os de tabuleiro, com regras e jogabilidade complicadas e interessantes; assim, não tinha como não me aventurar a criar jogos para o aprendizado de temas da aula de Português. O desafio dos questionários é um dos que eu mesmo criei, e considero um dos mais legais.

Mas, antes de chegar nele, preciso falar um pouco de como iniciei a abordagem dos questionários com os alunos. Para diagnosticar o conhecimento prévio deles sobre o gênero, fizemos um momento em que, em duplas, eles sorteavam uma palavra-tema de um potinho fornecido por mim, e deveriam criar uma pergunta com quatro opções de resposta, para o parceiro de dupla responder. Obtive como resultado um conjunto variado de perguntas, que depois mostrei aos alunos, projetadas em data show, discutindo com eles aspectos positivos, problemas e possibilidades alternativas da elaboração das perguntas e das alternativas. Os principais defeitos das perguntas por eles criadas foram a falta de clareza ou detalhamento das perguntas e a redundância das alternativas, conforme se pode ver nos exemplos abaixo. Ao mesmo tempo, porém, muitas questões mostravam um bom domínio prévio do gênero. Também abordei, nesse momento, a distinção entre pergunta de resposta única e pergunta de múltiplas respostas, apontando a necessidade ou não de uma alternativa não contradizer as outras, aspecto que seria crucial nos questionários que seriam aplicados na escola.


 
 Exemplos de perguntas elaboradas pelos alunos. Acima, duas perguntas mal elaboradas; abaixo, duas perguntas bem elaboradas

Então, tinha chegado a hora de jogar! Dividido em duas fases, o desafio dos questionários era na verdade bem simples: os alunos se dividiam em quatro grupos. Na primeira fase, eu dava uma pergunta e cada grupo deveria criar uma alternativa coerente. O grupo que conseguisse isso ganhava um ponto, e o grupo que propusesse a opção mais criativa ganhava mais um ponto extra. Na segunda fase, eu oferecia apenas o tema e sorteava dois grupos, um para elaborar uma pergunta e outro para elaborar quatro alternativas coerentes para ela. A pergunta bem elaborada valia um ponto, e as alternativas valiam de zero, caso nenhuma fosse coerente, a dois pontos, caso as quatro fossem válidas. O clima de disputa, o destaque das alternativas mais criativas e os feedbacks que eu dava ao longo do jogo sobre a validade ou não das perguntas e alternativas criadas pretendiam progressivamente amadurecer a compreensão dos alunos em torno do gênero.

Mesmo longe do nível ideal, parece que o processo aprimorou bastante o domínio do gênero de uma boa parte dos alunos. Pelo menos foi isso que percebi no momento seguinte, em que elaboramos o questionário oficial para a pesquisa de mercado da turma. Como etapa final do jogo, eu expliquei o objetivo de elaborar uma folha de questões para pesquisar as necessidades dos alunos da escola e as tendências de consumo deles, e os quatro grupos receberam cada um uma pergunta, elaborada por mim já com vistas ao questionário oficial, e deveriam criar no máximo 8 alternativas para ela, cada uma valendo um ponto. Cada grupo também foi incumbido de propor mais uma questão para o questionário oficial, com 4 alternativas, que também valeria pontos e definiria o grupo vencedor. Assim, os alunos exercitariam, ao mesmo tempo, o estabelecimento de coerência entre as perguntas dadas e as alternativas criadas e a elaboração autoral de questões.

O desempenho deles na elaboração de alternativas foi excelente, enquanto o de elaboração de perguntas não foi tanto, com apenas um grupo conseguindo criar uma questão válida para o objetivo do questionário. Refletindo sobre esse desempenho muito bom de alguns, mas mediano de outros, penso que possivelmente o processo por demais analógico de produção do texto, com carência de utilização das ferramentas digitais disponíveis, pode ter dificultado o engajamento mais efetivo dos alunos. Um ponto para ajustar nas futuras aplicações do projeto.

Ainda faltava abordar um último aspecto do gênero questionário: o texto introdutório, um recurso utilizado para explicar ao sujeito da pesquisa sobre a natureza dela e os motivos daquelas perguntas estarem sendo feitas a ele. Para mostrar aos alunos a necessidade do texto, estabeleci uma discussão baseada em duas perguntas: a) o que você faria se um estranho lhe abordasse e começasse a fazer perguntas?; b) como o estranho poderia lhe convencer a responder as perguntas? Após um animado debate, chegou-se ao consenso de que (não podendo oferecer dinheiro, possibilidade levantada por vários alunos), havia necessidade de explicar os objetivos das perguntas, dirigir-se à pessoa com educação e explicitar a garantia do anonimato, além de dar instruções ao leitor sobre como responder corretamente as questões.

Assim, cada aluno elaborou sua proposta de texto introdutório ao questionário. Com o avançar do tempo, e eu já sentindo que precisava apressar um pouco o trabalho, acabei fazendo algo de que não me orgulho: escolhi eu mesmo o melhor texto, e pulei a importante etapa do cotejo coletivo dos textos produzidos, para escolha igualmente coletiva do texto mais adequado. Não façam isso, colegas! Tentem organizar seu tempo melhor do que eu 😏

O questionário estava pronto! Com um texto introdutório e cinco perguntas, na elaboração das quais os alunos haviam tido participação intensa, meu objetivo parecia ter sido alcançado. Vejam abaixo o resultado final:

QUESTIONÁRIO

Olá, boa tarde.
Eu sou da 532, eu quero lhe oferecer uns produtos, mas para isso você tem que responder umas perguntas que eu vou te fazer.
Mas nessas perguntas você tem que escolher uma só alternativa.
Isso é para o trabalho de Português, que é para fazer produtos para resolver os nossos problemas. Obrigada pela sua atenção.
Texto: Luana Soares

1) Na sua opinião, qual o maior problema da escola?
(  ) A merenda não é boa para o consumo
(  ) Os funcionários demoram muito para abrir a porta depois do recreio
(  ) A guerra de frutas
(  ) Entrada cedo e saída tarde
(  ) Pichações
(  ) O fedor na frente da escola
(  ) O barulho das salas
(  ) As regras de vestimentas
(  ) A ignorância dos funcionários

2) Qual é o maior problema que você enfrenta em casa?
(  ) Brigar com familiares
(  ) Ser excluído pela mãe e pelo pai
(  ) Problemas financeiros
(  ) Seus familiares estarem doentes
(  ) Seu pai e sua mãe brigarem
(  ) Castigos
(  ) Apanhar dos pais
(  ) Pais alcoólatras
(  ) Dividir as coisas com irmãos

3) Qual o problema mais sério da sua rua?
(  ) Crimes
(  ) Vizinhos fofoqueiros
(  ) Som alto
(  ) Movimentação de veículos
(  ) Lixo amontoado
(  ) Ruas esburacadas
(  ) Enchente
(  ) Brigas de vizinhos
(  ) Cultos religiosos barulhentos
(   ) “Gato” na fiação elétrica

4) Você vai ao shopping comprar um produto para usar no seu dia-a-dia. Você acha mais importante que o produto tenha…?
(  ) uma cor legal
(  ) durabilidade
(  ) qualidade
(  ) desenho
(  ) um comercial famoso
(  ) múltiplas funções
(  ) um item a mais
(  ) preço barato

5) Qual a melhor coisa que pode acontecer na sua casa?
(  ) Ser reformada
(  ) Ganhar seu próprio quarto
(  ) Ganhar seu próprio banheiro
(  ) Ganhar sua mesada
(  ) Sua família estar toda reunida
(  ) Não morar mais de aluguel
(  ) Receber a visita de um famoso
(  ) Ganhar uma piscina



Feitas cerca de 200 cópias do questionário, ele foi passado amplamente entre os alunos do 6º ao 9º ano da escola. Nessa parte, os grupos tiveram autonomia para abordar pessoas, entrar em salas, explicar oralmente o objetivo do questionário e utilizar as mais diversas estratégias, o que gerou um clima animado e dinâmico. Em pouco mais de uma hora, já tínhamos todas as folhas preenchidas, e os grupos puseram-se a contabilizar as respostas. Depois, cada grupo me repassou sua contagem, e eu fiz a organização final dos dados, a partir dos quais montei gráficos que levei para debate entre os alunos, e que renderam também uma repercussão legal no Facebook. Vejam abaixo os resultados:



 
Gráficos com resultados do questionário aplicado. Software: LibreOffice Impress.


Ainda deu tempo dos alunos passarem os gráficos para cartolina, em tamanho grande, para serem expostos na escola. Teve até gráfico tátil, feito com bolinhas de jornal, numa tentativa de adaptar o texto para um aluno com deficiência visual que compunha a turma!

Uma nota a respeito da recepção: lembro que as menções nos questionários a problemas como "a ignorância dos funcionários" e à qualidade da merenda, manifestações, a meu ver, genuínas dos alunos, sem nada de grosseria ou gratuidade, geraram um burburinho entre os adultos da escola, que se sentiram pessoalmente ofendidos ou simplesmente, como me foi relatado mais tarde, achavam que eu não deveria expor aquilo. Ao mesmo tempo, pouca ou nenhuma manifestação positiva sobre qualquer aspecto do trabalho. É como diz uma professora que tive: os silêncios também são respostas... em suma, todo professor que quiser dar voz aos alunos certamente vai se deparar com essas vozes que têm um quê de anarquia, e, se escolher levá-las ao grande público (o que é o correto), vai enfrentar esses choques com a cultura corporativista e conservadora que predomina nas escolas. Precisamos enfrentar isso, se quisermos a mudança na educação!

E assim terminou nossa pesquisa de mercado! Agora só falta a quarta e última parte do relato, na qual você confere um pouco do que os alunos fizeram com esses dados, enquanto aprendíamos sobre propaganda audiovisual. Não deixe de ler!

domingo, 28 de outubro de 2018

O produto perfeito para o seu problema! Lendo e criando gêneros da publicidade - Parte 2

Esse é o segundo post da série em que estou narrando o trabalho desenvolvido a partir de gêneros da publicidade com alunos do 6º ano do Fundamental. Não deixe de ler a primeira parte do relato, aqui.

Claro que a literatura não ficaria de fora do projeto da feira de produtos. Afinal, são muitos os poemas, contos, crônicas, canções e histórias em quadrinhos que, além de proporcionarem prazer estético e serem peças importantes na história do seu gênero, podem ser discutidos sob o ponto de vista da representação da propaganda, do mercado, do consumo, etc. Os textos que eu pretendia ler com os alunos no ano passado eram: o conhecidíssimo conto O traje novo do imperador, na versão de Hans Christian Andersen; o poema de Décio Pignatari que marcou época na literatura brasileira, conhecido como Beba Coca Cola; a canção Téo vai às compras, da banda carioca El Efecto; e a HQ Paraíso perdido, escrita e desenhada pelo criador do Tio Patinhas, Carl Barks, em que a família de patos se refugia em um vale no Himalaia onde não existe o valor do dinheiro, mas acabam gerando uma violenta histeria no povo devido a cobiça por... tampinhas de garrafa!



 Acima, à esquerda, capa do livro Contos de Hans Christian Andersen; à direita, primeira página de Paraíso perdido; abaixo, poema de Décio Pignatari

Bom, na verdade cito aqui os quatro textos mais para mostrar a diversidade de leituras que um mesmo projeto comporta, pois, de fato, o único texto que foi devidamente explorado foi o conto de Andersen. Por limitações de tempo, a HQ sequer foi lida, e os outros textos não pareceram, à época, atrair muito os alunos, razão pela qual não levei adiante o trabalho com eles, que ficou limitado à leitura individual em sala. Mas pode ser que eu tenha também errado na abordagem, ainda preciso fazer uma autocrítica mais profunda... mas falemos de O traje novo do imperador!

A história remonta à Idade Média espanhola, tendo sido registrada pela primeira vez pelo príncipe Juan Manuel na coletânea El Conde Lucanor. A versão de Andersen traz o estilo romântico e o olhar espiritualista e otimista do autor dinamarquês, apresentando o imperador fanático por belos trajes que se deixa enganar por dois forasteiros que dizem ser capazes de, por um bom pagamento, tecer uma roupa linda, finíssima e com o curioso bônus de ser invisível aos estúpidos e aos incapazes. Claro que eles nada mais são do que ladrões, que se põem a tecer linhas e panos inexistentes por vários dias, guardando para si os generosos investimentos imperiais; acontece que nenhum dos aristocratas confessa não ver a roupa, com medo de ser considerado imprestável. Instaura-se, assim, um grande delírio coletivo em torno do objeto, que culmina no imperador desfilando em praça pública sem veste alguma. O dia é salvo por uma criança, a única ingênua (ou honesta) o suficiente para dizer em voz alta que o imperador não estava vestindo nada.

Tentando seguir a sequência prevista pela metodologia de letramento literário como elaborada por Rildo Cosson, iniciei o trabalho com uma atividade de motivação, que pretendia fazer os alunos experimentarem a sensação de "não ver" uma coisa que todos "viam". Era o jogo super conhecido do caça-palavras, mas com um toque especial: as palavras a serem encontradas seriam os nomes dos próprios alunos, mas alguns nomes, cerca de um terço da turma, não constariam do quadro. Assim, enquanto muitos alunos encontrariam seus nomes, outros ficariam muito tempo procurando sem sucesso, e eu esperava registrar e discutir com eles o que acontecesse ao longo do processo. Para isso, utilizei um software online de criação de caça-palavras, bastante simples e funcional, e salvei em formato .jpeg para projetar para os alunos em data show.

O jogo transcorreu animadamente. Os alunos marcavam seus nomes com pincel no quadro conforme iam encontrando. Muitos encontraram rapidamente, e se puseram a procurar os nomes dos outros, gerando um certo clima de expectativa quando encontravam algum antes da pessoa respectiva. Frases como "já encontrei o da Ana Paula..." e "égua, tu ainda não encontrou?" se tornaram comuns. Enquanto isso, os alunos cujos nomes não estavam no diagrama oscilavam entre um estado de ansiedade, preocupação ("Égua, tio, cadê o meu?"), desconfiança ("O senhor não botou o meu aí...") ou mesmo desmotivação, quando se conformavam de que não encontrariam. Eu tentava mediar todas essas reações, sem revelar o truque. Passados cerca de vinte minutos, dei por encerrada a brincadeira e pedi para falarem sobre as sensações experimentadas, ao que eles responderam que realmente tinham ficado ansiosos e um pouco nervosos, mas todos já intuíam que os nomes de alguns não estavam ali. Anunciei então que leríamos um conto no qual estaria presente uma situação parecida com aquela.

Ao distribuir o conto, eu esperava estabelecer uma etapa de leitura silenciosa e outra de leitura em voz alta com participação dos alunos. Não posso negar que ambas as etapas foram realizadas com uma mistura bastante caótica de reações: alunos que leram atentamente, sentindo curiosidade pela história; alunos que rejeitavam a leitura do texto completo, paravam na metade, ou antes, e punham-se a fazer outras coisas; alunos que liam uma certa parte do texto e faziam comentários jocosos, aparentemente ironizando a tarefa; alunos que simplesmente não liam... enfim, um cenário que desesperaria qualquer professor! Comigo não foi diferente; mas, com o tempo, fui percebendo que a leitura, principalmente a leitura cursiva, aberta para o sujeito, como desejo fazer, também é um hábito, e, como tal, precisa ser construído. Como era uma das primeiras tarefas na turma em que efetivamente líamos, não era surpreendente que os alunos se portassem daquela maneira. Hoje, que ainda trabalho com os mesmos alunos e a leitura se tornou rotina nas aulas, posso garantir que a postura de todos (inclusive a minha) é bem diferente.

De todo modo, o trabalho com o texto prosseguiu. Nas aulas seguintes, pedi aos alunos que respondessem um exercício de interpretação, que visava a exercitar e ensinar algumas estratégias de leitura, passando pela decodificação, pela inferência, pela compreensão e pela interpretação, e relacionando o texto com a vida.

 Exercício de leitura proposto a partir da leitura de O traje novo do imperador


A seguir, apresentei aos alunos uma análise de recursos linguísticos presentes no conto, enfatizando a presença de adjetivos e advérbios derivados (aqueles em que está presente o sufixo -mente). O objetivo, claro, não era meramente aprender a identificar e nomear as palavras desses tipos, mas principalmente saber usá-las na ordem textual. Por isso, o próximo exercício dos alunos seria a escrita de uma narrativa curta continuando a história de O traje novo do imperador a partir de seu final, devendo ser usados adjetivos e advérbios ao longo do texto.

Consigna do trabalho de produção textual

Em termos de conteúdo, os textos dos alunos, de forma geral, exploraram dois caminhos principais: a solução do problema da nudez do imperador e a punição dos vigaristas. Cito abaixo trechos de algumas produções, que sintetizam, a meu ver, a forma como a turma se relacionou com a leitura e a tarefa. O texto do aluno Vitor foi um dos que efetuou uma espécie de hibridização do conto original, trazendo elementos de outras histórias maravilhosas:
O imperador tava andando pelado numa floresta ai ele escutou um barulho atrás da árvore e foi ver o que era era uma passagem secreta e na passagem tinha um monte de pessoas lindas e maravilhosas mas todas de cara feia aí o imperador perguntou para as pessoas lindas mas de cara feia o imperador disse porque vocês estão assim e porque nós estamos enfeitiçados por uma bruxa nós somos todos pequenos e não conseguimos alcançar a árvore aí eles tenham medo de pegar aí o imperador disse eu pego a fórmula pra vocês e vocês terão que me arrumar roupas (...).
Enquanto, no texto de Vitor, o imperador soluciona astutamente seu problema, por meio de uma negociação, outros textos retrataram o personagem como uma figura ingênua, tola e bastante ridícula, em que a solução do problema da nudez envolve uma comicidade inerente. É o caso da narrativa da aluna Rayssa:
Ele ficou com muita vergonha na procissão mas ele seguiu em frente tinha uma árvore ele foi lá para pegar folha os vigaristas falaram ele é estúpido ele pegou as folhas e se cobriu e o imperador perguntou para o menino - você tem uma roupa para me emprestar e menino - não tenho (...)
O mesmo acontece no texto da Luanny, em que o recorte cômico da situação ganha ares aristotélicos, pois todas as peripécias vividas pelo imperador contribuem para, no final, sua vaidade e arrogância darem lugar ao vexame moral:
(...) veio um homem, murmurante em seu ouvido dizendo, você está nu, o imperador falou:
- O que eu?
O homem disse, o senhor mesmo.
- Mas eu um homem rico com trajes novos bonitos, não pode ser.
Mas senhor todo mundo está vendo o senhor nu, vá para seu castelo e coloque seus trajes bonitos.
O imperador falou:
- Eu vou, porque tenho uma grande festa para ir.
(...)
Chegando a festa o imperador estava se achando com suas lindas roupas (...) ele viu uma linda moça e a convidou para dançar com ele, e a moça aceitou. 
O imperador ficou encantado pela moça ficaram conversando e dançando a festa toda, quando deu meia-noite, ele ficou nu e a moça saiu de perto dele e ele querendo saber o que estava acontecendo (...) foi até a mesa da moça e rapidamente pediu desculpa e querendo saber o que estava acontecendo, a moça disse:
- Você está nu, no meio da festa o imperador disse mas eu estou vestido com lindo traje a moça falou:
- Se olha no espelho e você vai ver, então o imperador foi até o espelho e viu ele nu. Ele falou:
- Meu Deus! Ele falou assustado eu sou terrivelmente feio.
De um modo bastante diferente, a narrativa do aluno Josué insere uma sangrenta carga policial entre os personagens da história. Curiosamente, porém, propõe um final em que prevalece um otimismo algo democrático, ficando para trás os elementos de personalidade negativos que tinham conduzido o império à crise passada:
Quando chegou no palácio foi para o armário e vestiu outro traje. E disse:
- Peguem os vigaristas e os vigaristas disseram:
Porque o imperador quer nos prender nós fizemos tão carinhosamente o traje para ele e os dois vigaristas tentaram fugir e conseguiram mataram 5 soldados e tentaram matar o rei não conseguiram, um foi preso outro conseguiu escapar então eles juntaram mais 8 soldados e foram para tentar matar o rei (...) dessa vez conseguiram (...) e o imperador tinha o o filho então esse filho seria o novo imperador ele falava que iria governar que nem o pai mas ele se achava diferente, então ele decidiu que iria governar mas que iria agradar o povo com sua governança bondosa, não iria ser safado, otário e burro e ele governou muitos anos até sua morte.
O aspecto formal dos textos, especificamente no que se refere ao uso dos adjetivos e advérbios que eu tinha solicitado, foi o que me conduziu a maiores reflexões. Isso porque, mesmo que muitos alunos tivessem usado corretamente as palavras pedidas (alguns até com bastante propriedade, como se pode ver nos exemplos acima), percebi que muitos textos estavam tomados de aplicações apressadas, imprecisas e erradas delas, como: "perdi toda a minha riqueza e fiquei malucamente"; "e os vigaristas burros deixaram afrouxadamente as cordas"; "mas estupidamente não se sentia mais pela verdade"; "ficou agradavelmente nada bem com aquela roupa". De fato, parecia que a minha consigna tinha tensionado a escrita dos alunos, de forma a extrair usos de adjetivos e advérbios de muitos cuja compreensão ainda não era suficientemente madura, resultando, da parte deles, em uma preocupação maior em tentar cumprir o comando, em detrimento da qualidade do texto e da consistência da narrativa. Penso, enquanto escrevo esse relato, que um procedimento mais adequado seria a escrita livre em um primeiro momento, para só depois fazer a análise linguística do conto ou ensinar sobre o gênero, baseando-se nos conhecimentos prévios e nas necessidades de aprendizagem dos alunos, diagnosticadas a partir de seus textos. Foi o que tentei fazer em outras ocasiões que em breve contarei aqui no blog.

Mas vocês devem estar me perguntando: esse projeto não era sobre propaganda? E era mesmo! Por isso, o que propus para finalizar o trabalho com o conto de Andersen, como uma prévia do que eu almejava como objetivo geral, foi que os alunos, dividindo-se em equipes, imaginassem e desenhassem sua proposta de traje do imperador em cartolina, para, a seguir, fazermos uma exposição pública, em que os demais alunos escolheriam, pelo voto, a melhor concepção. Foi um dos momentos mais animados de todo o projeto, com muitos alunos realizando obras extraordinárias, e com muita participação de todos da escola na exposição, com direito até a organização de torcidas! Infelizmente, não me lembro se registrei e perdi as fotos dos trabalhos, ou se simplesmente não registrei. Não é a primeira vez que peco por desleixo de registrar esses momentos... mas juro que estou tentando melhorar nisso 🙈 De todo modo, fica a descrição do que foi feito, como um exemplo de alternativa para construir elos entre o literário e o prático.

E assim termina essa segunda parte do relato! O que você achou das produções escritas dos alunos? Que outros textos relacionados à publicidade você conhece? O que você faria diferente de mim? Deixem seus comentários... e aguardem a parte 3!

Para saber mais sobre letramento literário, pode começar pela resenha ao livro de Rildo Cosson dedicado ao assunto.
Sobre estratégias de leitura, uma boa dica é o livro digital organizado pelo Renilson Menegassi.
Dois capítulos sobre análise linguística são encontrados no livro organizado pelos professores Menegassi e Márcia Ohuschi.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

O produto perfeito para o seu problema! Lendo e criando gêneros da publicidade - Parte 1

Hoje começo a contar sobre um trabalho que venho pensando e aprimorando com as turmas de 6º ano do Fundamental da Escola Municipal Rotary, em Belém, desde 2015. Em suas origens, a ideia trazia um objetivo geral: promover uma feira de produtos imaginários, criados pela turma para resolver problemas domésticos, escolares e comunitários levantados pelos demais alunos. Para tanto, eu previa que os alunos lessem, discutissem e criassem textos de gêneros da esfera da publicidade: questionários para fazer uma "pesquisa de mercado" e anúncios e propagandas, escritos e filmados, para vender os produtos criados a partir das demandas dos estudantes.

Esse objetivo geral, de fato, ainda não foi concretizado, principalmente devido ao descompasso entre o planejamento e o tempo disponível, que é um problema constante pra quem trabalha sem um currículo rígido. Porém, as produções feitas pelos alunos no contexto desse projeto já formam um conjunto muito interessante, que vale a pena examinar. Nesse relato, vou me ater mais aos registros do trabalho feito em 2017, que reúne o maior e mais bem acabado conjunto de produções. E, como foi um projeto de vários meses e com muitos momentos interessantes, dividi o relato em uma série de três ou quatro postagens. Me acompanhem, que não vão se arrepender!

A primeira tarefa proposta no projeto foi a leitura de anúncios em jornais e revistas. Na escola, temos a sorte de ter uma biblioteca com um bom acervo de jornais e revistas impressas e a professora Nádia Cordovil, uma profissional muito acessível e proativa. Assim, pudemos fazer uma aula para os alunos manusearem esses materiais e coletarem anúncios que achassem interessantes.

Observei que havia uma certa disparidade no conhecimento prévio dos alunos: enquanto muitos reconheciam de imediato e sabiam onde encontrar os anúncios nas revistas e jornais, outros demoravam a entender no que consistia o gênero, e mostravam reportagens, entrevistas e outros tipos de enunciado, julgando serem anúncios. Uma distinção bem difícil de fazer foi entre anúncios publicitários do tipo que basearia nosso trabalho, aqueles em que era mostrado apenas um produto, exaltando-se suas qualidades, e os anúncios que chamei de "tipo catálogo", em que se listavam produtos em oferta de um determinado vendedor, usado principalmente por supermercados e atacadistas. Mesmo pesquisando depois, não achei referências que baseassem essa distinção. Isso mostra o quanto é essencial adotarmos uma postura pesquisadora, e não reprodutora, em nosso trabalho! A realidade é complexa, as teorias incompletas, e não podemos dar aos alunos a impressão de que tudo já está dado, mas incentivá-los a perceber e investigar o novo.

Ao final, foram coletados cerca de 30 anúncios. Importante destacar que não arrancávamos as partes das revistas e jornais que continham os textos, mas fotografávamos as páginas, usando o meu celular e os dos próprios alunos. Isso permitia que fosse preservado o material para outras pesquisas e também facilitava depois a visualização dos anúncios em outras mídias.




Alguns dos anúncios pesquisados pelos alunos em revistas

Os textos pesquisados, bastante diversificados e cheios de recursos legais de perceber e refletir sobre, foram organizados por mim em uma apresentação de slides, chamando atenção para os componentes verbais (slogans, argumentos, descrições, figuras de linguagem) e visuais (imagens, ilustrações, logotipos) que compunham o texto. Muitos alunos participaram da aula em que visualizamos esses slides, de forma até surpreendente, respondendo perguntas e interpretando informações dos textos de forma muito inteligente.



 Exemplo de apresentação de slides utilizada para a interpretação dos anúncios. Software: LibreOffice Impress.

Além da leitura e da interpretação dos anúncios, pedi também aos alunos que fizessem um exercício que chamei de escrita matricial, em que se toma um enunciado verbal de um determinado anúncio e se retira a maior parte das palavras significativas, resultando numa espécie de matriz com lacunas a partir da qual o aluno deve criar um outro enunciado. O exercício pode parecer artificial e contrário ao paradigma interacionista, e de fato é, mas julgo ser um passo importante na aquisição e na prática de tipos genéricos com composição e estilo marcados, como é o caso dos gêneros da publicidade, em especial para alunos com nível de leitura relativamente baixo. Assim, ao longo do exercício, fui explicando em termos mais metalinguísticos algumas características dos enunciados dos anúncios, como o uso do imperativo, a topicalização a partir do nome do produto, a adjetivação e adverbialização valorativa, dentre outros.

Exemplos de exercício de escrita matricial


A seguir, propus um exercício a partir das instigantes fotocolagens de Grete Stern e de outros artistas. Cada aluno escreveria um texto de anúncio baseado na imagem apresentada. A tarefa fez surgir diversos textos coerentes e interessantes, mas alguns se destacaram, pelo bom humor e pelo inusitado da sugestão. O aluno Josué, por exemplo, associou a montagem abaixo à cárie e aos problemas dentários, escrevendo um anúncio de pasta de dente que protegeria contra esses problemas.


Fotocolagem de Grete Stern, 1904

E assim foi o início do nosso trabalho com propaganda! O que eu poderia destacar? Com certeza, a tentativa que fiz de atar, de forma suave e compreensiva, o contato com exemplares reais, concretos, do gênero estudado, por meio da pesquisa em revistas e jornais, e a abertura para a fantasia, para a criatividade extracotidiana, por meio do exercício com as fotocolagens. Acredito que transitar entre esses dois polos é fundamental em todo o trabalho com a linguagem na escola. Afinal, como diz a frase de Einstein que juntei à apresentação pessoal que postei aqui como atividade do curso de informática, "a imaginação é mais importante que o conhecimento". É o que a gente vai ver também na segunda parte dessa série, em que narro como a literatura entrou na parada. Em breve posto por aqui. Aguardem!

Pequena reflexão...

A forma como muitos alunos e professores veem a escola ainda hoje: um lugar de conflito, controle, medição de forças, medo e silenciamento. A demanda difusa por mais "autoridade do professor", que hoje ganha força em parte da sociedade, supõe uma cultura anacrônica de vigilância e violência, incompatível com as boas práticas pedagógicas que vem sendo popularizadas.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Apresentação

Uma das tarefas do curso de informática educacional que estou fazendo foi criar uma pequena apresentação pessoal usando o software Apresentações Google, e compartilhá-la no blog. Então, aí vai. Espero que gostem!