Depois de trabalhar com anúncios impressos e com textos literários relacionados ao tema da propaganda, chegava a hora de mexer com outro instigante gênero da publicidade: os anúncios em audiovisual. O que não me parecia difícil, dado a onipresença desse tipo de enunciado na mídia televisiva e a familiaridade dos alunos com ele.
De fato, desde o início as atividades dessa etapa foram muito bem recebidas por eles. Primeiro, como um aquecimento, levei para mostrar em sala vários exemplos de anúncios em vídeo, considerando produtos presentes no imaginário infanto-juvenil. Dois dos quais até hoje gosto muito são o comercial do chocolate Snickers e o anúncio da ração canina Pedigree Sachê. Durante a sessão dos vídeos, de forma semelhante ao que já tinha feito com os anúncios impressos, eu fazia comentários e perguntas, tentando apontar aos alunos aspectos importantes do gênero.
Como o objetivo seguinte era que eles produzissem vídeos de anúncios a partir de roteiros escritos, considerei que uma distinção essencial a se fazer era aquela entre o texto verbal e o texto visual dos anúncios, ou seja, entre o texto dito com palavras, seja por um locutor em off ou por personagens, e o "texto" depreensível da ação e da interação entre os personagens. A união dos dois textos, alternando trechos do verbal e do visual, originaria o roteiro. Importante ressaltar que, na falta de uma referência teórica mais específica sobre a qual me apoiar, essa nomenclatura foi proposta por mim mesmo. Vejo muitos trabalhos pedagógicos a partir do conceito de gênero se prenderem excessivamente a diretrizes e análises exógenas, e que por isso acabam perdendo o componente fundamental da intuição do professor e da sua própria experiência de leitor. Isso é um erro, pois muitas vezes são esses últimos componentes que se revelam mais importantes na mediação do aprendizado dos alunos sobre o gênero, e mesmo a metalinguagem acadêmica se torna nebulosa e pouco acessível para eles. Devemos usar a teoria, mas reconhecer seus limites e ir além deles!
Pois bem; para facilitar a compreensão dessa dicotomia, e ao mesmo tempo impulsionar a criatividade dos alunos, que seria essencial nas etapas seguintes, utilizei dois anúncios ficcionais oriundos do excelente programa humorístico Tá No Ar, da Rede Globo. Eles apresentavam o produto Sapos, que consistia literalmente de um grande sapo que a mãe colocava ao lado do filho durante o sono para protegê-lo de mosquitos, e o Insetizinho, um aerossol cuja finalidade era desmaiar o vizinho que não tinha cuidados com os criadouros do mosquito da dengue, de modo que você poderia entrar no quintal dele e acabar com os focos do mosquito. O Tá No Ar, programa que teve umas quatro temporadas na Globo, tem vários ótimos esquetes com anúncios de produtos fictícios e outras paródias da esfera televisiva. Recomendo o programa a todos os professores que pretendem mexer com isso!
O vídeo do Sapos, mais curto e simples, serviu para eu explicar inicialmente a distinção entre os textos verbal e visual e a consequente formação do roteiro, e o do Insetizinho, mais longo e complexo, foi mostrado aos alunos com a proposta de um exercício em duplas, em que um membro deveria registrar o texto verbal e o outro o texto visual, montando, a seguir, o roteiro.
Conduzido dessa forma, considerei o trabalho um grande sucesso: os alunos não apenas compuseram roteiros em sua maior parte corretos, como aplicaram os conhecimentos adquiridos posteriormente para escrever os roteiros de seus produtos, baseados na pesquisa de mercado feita anteriormente. Infelizmente, como já apontei no início desse relato, o gargalo de tempo disponível não permitiu que chegássemos ao final do projeto, de modo que nem todos esses roteiros foram transformados em vídeos, e apenas um teve a produção um pouco mais avançada: o do Multi D, um multiplicador de objetos, criado para atender à demanda levantada nos questionários sobre ter que "dividir as coisas com irmãos".
O resultado do vídeo, escrito, dirigido e estrelado pelos alunos, com a minha colaboração, foi, a meu ver, muito satisfatório. As meninas conseguiram utilizar vários componentes do gênero, como a locução, a criação de uma situação ficcional, a interação entre personagens, as expressões faciais, dentre outros, com propriedade, explorando o tema de forma bem humorada sem perder o vínculo com a realidade. Mesmo sem a realização da grande feira final, considero a propaganda do Multi D um símbolo de um trabalho bem sucedido, e uma inspiração para os próximos anos, em que terei a oportunidade de repetir e aperfeiçoar o projeto.
Vídeo de propaganda do produto Multi D. Software: Sony Vegas e Audacity.
E assim terminou o trabalho com o projeto Feira de produtos em 2017! Um processo longo, mas que ao final estava longe de dar sinais de cansaço, com os alunos e eu nos divertindo e mostrando muito prazer e interesse.
Deixa nos comentários o que você achou do trabalho! O que você faria diferente de mim? Que sugestões daria? Tem ou conhece alguma experiência legal com propaganda na escola? Vamos trocando ideias 😁
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