Parte da minha turma de 2015 da EJA. Da esquerda para a direita: Yasmin, Anderson, Elilson, Hellen, Mariely, eu, Aparecida, Tiago e Luiza
2015 foi um ano especial no meu trabalho com a Educação de Jovens e Adultos. Após um 2014 meio esquisito, em que minhas propostas, talvez por terem ainda pouca consistência, não pareceram ser muito bem recebidas pelos alunos, dediquei-me desde o início do ano letivo seguinte a um planejamento mais aprofundado, tentando estabelecer na aula de Português um aprendizado contínuo a partir da leitura, escrita e debate sobre temáticas que considerava relevantes para a formação dos estudantes.
Um dos temas que povoava meus pensamentos era o tráfico de drogas. Eu já tinha estudado um pouco sobre o assunto, e conhecia algumas questões envolvidas nele: a relação com a geografia da cidade, com a violência urbana, o impacto do tráfico na superlotação presidiária, as terapias de viés religioso para o vício em drogas, o movimento pela legalização da maconha... esperava que tudo isso viesse à tona no diálogo com os alunos, especialmente por estar em uma escola em bairro de periferia, onde as drogas são presentes na vida ou no imaginário de praticamente todos os moradores.
Para iniciar as discussões, escolhi um artigo científico do professor Aiala Colares, da Universidade do Estado do Pará, intitulado "Do Global ao Local: A geografia do narcotráfico na periferia de Belém". Era de se esperar que, por ser um gênero de uma esfera comunicativa distante dos alunos e extremamente monitorado, a leitura encontrasse algumas dificuldades, devendo ser feita de forma mais dirigida por mim. Assim, ao longo de várias aulas, fomos lendo o artigo, ora em conjunto, ora individualmente, mas sempre tentando discutir e esclarecer pontos obscuros, bem como adotar uma postura de acolhimento e escuta das elaborações dos alunos a respeito do conteúdo do artigo, por mais que não fossem totalmente corretos.
Ao fim da leitura, propus aos alunos a primeira atividade de escrita: a socialização do conteúdo estudado com alunos de outras turmas e funcionários da escola. Para tanto, contaríamos com o apoio da professora Myrna Reis e do Laboratório de Informática da escola para produzir infográficos utilizando os recursos do site Easelly, que contém um software gratuito de criação de infográficos. Depois, faríamos fotocópias das produções dos alunos e distribuiríamos pela escola como panfletos, conversando com as pessoas e dando breves explicações sobre o tema estudado e o trabalho realizado. Assim, o trabalho integrava a leitura e a escrita de um texto multimodal, permitindo aos alunos integrar texto, imagem, cores e disposição das informações na tela, dialogando assim com a cibercultura e com a linguagem da internet, com a qual eles vêm cada vez mais se familiarizando.
Antes de começar o trabalho no Laboratório, lemos alguns infográficos coletados na internet, e apresentei aos alunos as características e as diversas possibilidades do gênero.
Alguns dos infográficos lidos com os alunos em sala antes da atividade prática
O trabalho no Laboratório foi organizado com os alunos em duplas ou trios, e dividido entre um primeiro momento de exploração das ferramentas do site, em que os alunos ficaram livres para visualizar as imagens e recursos disponíveis e testar como eles funcionavam na tela do infográfico, e um segundo momento em que os recursos deveriam ser usados para a produção do infográfico sobre os temas abordados pelo artigo, que, conforme estabelecemos previamente, seriam: os atores sociais do tráfico de drogas, a rede internacional de tráfico e a gentrificação, fenômeno urbano responsável pelo estabelecimento de lócus privilegiados para a difusão do tráfico. Ao longo de todo o processo, eu orientava e dava sugestões às equipes, mostrando, com meu computador pessoal e um projetor, como utilizar a interface do Easelly.
A atividade revelou, é verdade, que alguns alunos tinham adquirido mais domínio do assunto do que outros ao longo das aulas, bem como uma parte da turma ganhou intimidade com a ferramenta de informática mais rápido do que outros, o que levanta problemas de ordem didática e da própria organização do tempo escolar. Mesmo assim, o resultado foi muito interessante, manifestando a forma de cada aluno de se apropriar do conteúdo, alguns mais atentos ao texto do artigo, outros mais livres para parafrasear de acordo com sua experiência de vida e seu repertório linguístico; alguns com uma crítica mais exuberante, retratada nas imagens e termos escolhidos, outros com uma perspectiva de mais neutralidade.
Infográficos produzidos pelos alunos. Software: Easelly.
É bom ressaltar que o Easelly, além de dar a opção de download do arquivo criado nas extensões mais usuais, como .jpeg e .pdf, também armazenava os arquivos em nuvem no próprio site. Como os alunos produziram os infográficos logados em uma conta criada por mim, eu podia acessar as produções de casa, fazer a edição final e imprimir. Foi o que fiz, tirando várias cópias de cada um, que os alunos usaram depois para fazer a panfletagem na própria escola.
O tema das drogas visivelmente ainda dava pano pra manga. Eu e a professora Daniella Briaca, de Artes, percebemos isso, e resolvemos integrá-lo a uma programação da escola em que os alunos fariam apresentações culturais: a partir de um texto escrito por ela e finalizado por mim, fizemos uma peça de teatro que apresentava algumas questões envolvidas no problema. A história era a de um jovem usuário de drogas, que, após diversos conflitos familiares e envolvimento com os traficantes, acabava executado pela polícia. O processo de ensaio foi uma das experiências mais marcantes para mim, pois os alunos se envolveram com muito entusiasmo, e o espetáculo se destacou no dia da culminância dos trabalhos, sendo muito elogiado. Infelizmente os poucos registros feitos no dia se perderam...
Mas ainda havia espaço para mais. E terminamos o ano trabalhando com mais um evento, que ofereceria ainda uma outra perspectiva sobre a questão das drogas aos alunos: uma mesa-redonda com o tema "Legalização ou proibição da maconha?", em que, convidados por mim, um militante pró-legalização e um psicólogo contrário à reivindicação debateriam e responderiam perguntas. A mesa seria mediada pelo aluno Anderson, numa tentativa de dar protagonismo aos alunos, além de proporcionar o trabalho com mais uma forma de interação pela linguagem.
Para convidar a comunidade para o dia do evento, propus aos alunos, inspirado em um vídeo publicitário de um programa de televisão, a criação de um vídeo-convite, que seria mostrado na escola nos dias anteriores ao da mesa, podendo também ser compartilhado via redes sociais e aplicativos de mensagem. Nessa tarefa os alunos também mergulharam de cabeça. Foi interessante perceber como as propostas irreverentes de uns e mais conservadoras de outros se encaixaram muito bem no texto do vídeo, construído coletivamente, e como essas diversas posições encontradas entre os alunos sobre o tema puderam ser acolhidas pela proposta. Não obstante nossos poucos recursos de gravação e edição, o vídeo foi finalizado, com cada aluno escolhendo um ambiente da escola para filmar sua parte, e a faixa "Cine Trash", da banda de heavy metal belenense Madame Saatan, fornecendo a trilha sonora perfeita.
Vídeo-convite produzido com alunos. Software: Windows Movie Maker.
Foi engraçado, e ao mesmo tempo preocupante, o conservadorismo com que a iniciativa foi recebida por parte da coordenação pedagógica e pela direção, que manifestaram preocupação com o debate da temática e me consultaram repetidamente falando do receio de estimular o consumo de drogas na escola, visto que já havíamos tido problemas relacionados a isso alguns meses antes. Mas as devidas (ou as possíveis) explicações foram dadas, e a mesa-redonda foi realizada no dia 11 de dezembro de 2015, na escola, com participação de todos os alunos da EJA e de professores e funcionários da escola, além de alguns convidados externos trazidos pelos debatedores, incluindo até policiais e estudantes universitários. O debate transcorreu animadamente, com muitas participações e perguntas, embora, para mim, um legalizacionista convicto, o professor responsável por defender a descriminalização tenha pecado por adotar um discurso focado excessivamente em aspectos filosóficos e sociopolíticos da questão e pouco nas consequências práticas, o que foi percebido também pelos alunos, enquanto o psicólogo desde o início se comunicou com extrema clareza e com uma retórica simples e eloquente, angariando, ao final da noite, a concordância de muitos dos presentes.
Vou ficar devendo o vídeo com alguns trechos do debate, pois, apesar de o ter salvo em meus arquivos, são muito poucos e a qualidade ficou bem baixa, então nunca me animei para editá-lo. Instrumentos mais adequados para o registro só entraram em minha vida um pouco depois dessa época. Mas creio ter dado uma boa ideia do que foi o trabalho. Ressalto, por fim, o enorme potencial que tem para o envolvimento e o aprendizado dos alunos um trabalho com projetos ou temas geradores, que proporcionam um planejamento a longo prazo, acomodam conteúdos escolares diversos e de várias disciplinas, além de possibilitarem o aprofundamento dos debates e da compreensão dos assuntos, muito necessário em uma perspectiva de educação intrinsecamente ligada à vida democrática.
O que achou? Qual sua opinião sobre os assuntos debatidos com os alunos? Que sugestões daria para futuras abordagens desse tema e de outros? Deixa nos comentários!
Para saber mais sobre multimodalidade, acesse o texto de Roxane Rojo sobre gêneros multimodais.
Para conhecer melhor a perspectiva de ensino de Português pautada nos gêneros discursivos, recomendo o artigo da professora Lopes-Rossi.





