domingo, 11 de novembro de 2018

O produto perfeito para o seu problema! Lendo e criando gêneros da publicidade - Parte 4

Esse é o quarto e último post da série em que estou narrando o trabalho desenvolvido a partir de gêneros da publicidade com alunos do 6º ano do Fundamental. Não deixe de ler a primeira parte do relato, aqui, a segunda aqui e a terceira parte aqui.

Depois de trabalhar com anúncios impressos e com textos literários relacionados ao tema da propaganda, chegava a hora de mexer com outro instigante gênero da publicidade: os anúncios em audiovisual. O que não me parecia difícil, dado a onipresença desse tipo de enunciado na mídia televisiva e a familiaridade dos alunos com ele.

De fato, desde o início as atividades dessa etapa foram muito bem recebidas por eles. Primeiro, como um aquecimento, levei para mostrar em sala vários exemplos de anúncios em vídeo, considerando produtos presentes no imaginário infanto-juvenil. Dois dos quais até hoje gosto muito são o comercial do chocolate Snickers e o anúncio da ração canina Pedigree Sachê. Durante a sessão dos vídeos, de forma semelhante ao que já tinha feito com os anúncios impressos, eu fazia comentários e perguntas, tentando apontar aos alunos aspectos importantes do gênero.

Como o objetivo seguinte era que eles produzissem vídeos de anúncios a partir de roteiros escritos, considerei que uma distinção essencial a se fazer era aquela entre o texto verbal e o texto visual dos anúncios, ou seja, entre o texto dito com palavras, seja por um locutor em off ou por personagens, e o "texto" depreensível da ação e da interação entre os personagens. A união dos dois textos, alternando trechos do verbal e do visual, originaria o roteiro. Importante ressaltar que, na falta de uma referência teórica mais específica sobre a qual me apoiar, essa nomenclatura foi proposta por mim mesmo. Vejo muitos trabalhos pedagógicos a partir do conceito de gênero se prenderem excessivamente a diretrizes e análises exógenas, e que por isso acabam perdendo o componente fundamental da intuição do professor e da sua própria experiência de leitor. Isso é um erro, pois muitas vezes são esses últimos componentes que se revelam mais importantes na mediação do aprendizado dos alunos sobre o gênero, e mesmo a metalinguagem acadêmica se torna nebulosa e pouco acessível para eles. Devemos usar a teoria, mas reconhecer seus limites e ir além deles!

Pois bem; para facilitar a compreensão dessa dicotomia, e ao mesmo tempo impulsionar a criatividade dos alunos, que seria essencial nas etapas seguintes, utilizei dois anúncios ficcionais oriundos do excelente programa humorístico Tá No Ar, da Rede Globo. Eles apresentavam o produto Sapos, que consistia literalmente de um grande sapo que a mãe colocava ao lado do filho durante o sono para protegê-lo de mosquitos, e o Insetizinho, um aerossol cuja finalidade era desmaiar o vizinho que não tinha cuidados com os criadouros do mosquito da dengue, de modo que você poderia entrar no quintal dele e acabar com os focos do mosquito. O Tá No Ar, programa que teve umas quatro temporadas na Globo, tem vários ótimos esquetes com anúncios de produtos fictícios e outras paródias da esfera televisiva. Recomendo o programa a todos os professores que pretendem mexer com isso!

O vídeo do Sapos, mais curto e simples, serviu para eu explicar inicialmente a distinção entre os textos verbal e visual e a consequente formação do roteiro, e o do Insetizinho, mais longo e complexo, foi mostrado aos alunos com a proposta de um exercício em duplas, em que um membro deveria registrar o texto verbal e o outro o texto visual, montando, a seguir, o roteiro.

Conduzido dessa forma, considerei o trabalho um grande sucesso: os alunos não apenas compuseram roteiros em sua maior parte corretos, como aplicaram os conhecimentos adquiridos posteriormente para escrever os roteiros de seus produtos, baseados na pesquisa de mercado feita anteriormente. Infelizmente, como já apontei no início desse relato, o gargalo de tempo disponível não permitiu que chegássemos ao final do projeto, de modo que nem todos esses roteiros foram transformados em vídeos, e apenas um teve a produção um pouco mais avançada: o do Multi D, um multiplicador de objetos, criado para atender à demanda levantada nos questionários sobre ter que "dividir as coisas com irmãos".

O resultado do vídeo, escrito, dirigido e estrelado pelos alunos, com a minha colaboração, foi, a meu ver, muito satisfatório. As meninas conseguiram utilizar vários componentes do gênero, como a locução, a criação de uma situação ficcional, a interação entre personagens, as expressões faciais, dentre outros, com propriedade, explorando o tema de forma bem humorada sem perder o vínculo com a realidade. Mesmo sem a realização da grande feira final, considero a propaganda do Multi D um símbolo de um trabalho bem sucedido, e uma inspiração para os próximos anos, em que terei a oportunidade de repetir e aperfeiçoar o projeto.


Vídeo de propaganda do produto Multi D. Software: Sony Vegas e Audacity.


E assim terminou o trabalho com o projeto Feira de produtos em 2017! Um processo longo, mas que ao final estava longe de dar sinais de cansaço, com os alunos e eu nos divertindo e mostrando muito prazer e interesse.

Deixa nos comentários o que você achou do trabalho! O que você faria diferente de mim? Que sugestões daria? Tem ou conhece alguma experiência legal com propaganda na escola? Vamos trocando ideias 😁

O produto perfeito para o seu problema! Lendo e criando gêneros da publicidade - Parte 3

Esse é o terceiro post da série em que estou narrando o trabalho desenvolvido a partir de gêneros da publicidade com alunos do 6º ano do Fundamental. Não deixe de ler a primeira parte do relato, aqui, e a segunda parte, aqui.

Nessa terceira parte do relato, exponho uma das etapas mais empolgantes do projeto da feira de produtos: a nossa pesquisa de mercado, ou, em outras palavras, o momento em que saímos pela escola coletando informações sobre os problemas enfrentados pelos alunos, para depois propor soluções imaginárias para eles por meio dos produtos inventados. Essa etapa foi pensada desde o início como forma de proporcionar aos alunos uma oportunidade concreta de interação social, fazendo com que os produtos atendessem às pulsões de fantasia próprias da idade deles, mas também fincassem pés no contexto socioeconômico real em que viviam. Assim, os enunciados produzidos passavam a ser enunciados concretos, e não apenas respostas a comandos e solicitações artificiais de um professor.

Desde 2015, quando as primeiras ideias desse projeto foram ensaiadas, eu estava convencido de que essa etapa precisaria de questionários ou de outro gênero semelhante, de modo a colher as informações dos demais alunos da escola, mas me perguntava como levar os alunos à compreensão de um gênero padronizado como o questionário, de modo que eles pudessem eles mesmos produzir a folha de questões, ou pelo menos ter uma participação significativa nela, sem tornar as atividades tediosas e mecânicas. Não sei se por sorte ou amadurecimento, naquele ano de 2017 em que foi feito o trabalho que agora estou narrando, eu tinha chegado a uma ideia que considerei muito eficiente: trabalhar os questionários por meio de jogos.

Os jogos sempre foram parte importante de meu trabalho. Eu mesmo sou um fã de joguinhos, principalmente os de tabuleiro, com regras e jogabilidade complicadas e interessantes; assim, não tinha como não me aventurar a criar jogos para o aprendizado de temas da aula de Português. O desafio dos questionários é um dos que eu mesmo criei, e considero um dos mais legais.

Mas, antes de chegar nele, preciso falar um pouco de como iniciei a abordagem dos questionários com os alunos. Para diagnosticar o conhecimento prévio deles sobre o gênero, fizemos um momento em que, em duplas, eles sorteavam uma palavra-tema de um potinho fornecido por mim, e deveriam criar uma pergunta com quatro opções de resposta, para o parceiro de dupla responder. Obtive como resultado um conjunto variado de perguntas, que depois mostrei aos alunos, projetadas em data show, discutindo com eles aspectos positivos, problemas e possibilidades alternativas da elaboração das perguntas e das alternativas. Os principais defeitos das perguntas por eles criadas foram a falta de clareza ou detalhamento das perguntas e a redundância das alternativas, conforme se pode ver nos exemplos abaixo. Ao mesmo tempo, porém, muitas questões mostravam um bom domínio prévio do gênero. Também abordei, nesse momento, a distinção entre pergunta de resposta única e pergunta de múltiplas respostas, apontando a necessidade ou não de uma alternativa não contradizer as outras, aspecto que seria crucial nos questionários que seriam aplicados na escola.


 
 Exemplos de perguntas elaboradas pelos alunos. Acima, duas perguntas mal elaboradas; abaixo, duas perguntas bem elaboradas

Então, tinha chegado a hora de jogar! Dividido em duas fases, o desafio dos questionários era na verdade bem simples: os alunos se dividiam em quatro grupos. Na primeira fase, eu dava uma pergunta e cada grupo deveria criar uma alternativa coerente. O grupo que conseguisse isso ganhava um ponto, e o grupo que propusesse a opção mais criativa ganhava mais um ponto extra. Na segunda fase, eu oferecia apenas o tema e sorteava dois grupos, um para elaborar uma pergunta e outro para elaborar quatro alternativas coerentes para ela. A pergunta bem elaborada valia um ponto, e as alternativas valiam de zero, caso nenhuma fosse coerente, a dois pontos, caso as quatro fossem válidas. O clima de disputa, o destaque das alternativas mais criativas e os feedbacks que eu dava ao longo do jogo sobre a validade ou não das perguntas e alternativas criadas pretendiam progressivamente amadurecer a compreensão dos alunos em torno do gênero.

Mesmo longe do nível ideal, parece que o processo aprimorou bastante o domínio do gênero de uma boa parte dos alunos. Pelo menos foi isso que percebi no momento seguinte, em que elaboramos o questionário oficial para a pesquisa de mercado da turma. Como etapa final do jogo, eu expliquei o objetivo de elaborar uma folha de questões para pesquisar as necessidades dos alunos da escola e as tendências de consumo deles, e os quatro grupos receberam cada um uma pergunta, elaborada por mim já com vistas ao questionário oficial, e deveriam criar no máximo 8 alternativas para ela, cada uma valendo um ponto. Cada grupo também foi incumbido de propor mais uma questão para o questionário oficial, com 4 alternativas, que também valeria pontos e definiria o grupo vencedor. Assim, os alunos exercitariam, ao mesmo tempo, o estabelecimento de coerência entre as perguntas dadas e as alternativas criadas e a elaboração autoral de questões.

O desempenho deles na elaboração de alternativas foi excelente, enquanto o de elaboração de perguntas não foi tanto, com apenas um grupo conseguindo criar uma questão válida para o objetivo do questionário. Refletindo sobre esse desempenho muito bom de alguns, mas mediano de outros, penso que possivelmente o processo por demais analógico de produção do texto, com carência de utilização das ferramentas digitais disponíveis, pode ter dificultado o engajamento mais efetivo dos alunos. Um ponto para ajustar nas futuras aplicações do projeto.

Ainda faltava abordar um último aspecto do gênero questionário: o texto introdutório, um recurso utilizado para explicar ao sujeito da pesquisa sobre a natureza dela e os motivos daquelas perguntas estarem sendo feitas a ele. Para mostrar aos alunos a necessidade do texto, estabeleci uma discussão baseada em duas perguntas: a) o que você faria se um estranho lhe abordasse e começasse a fazer perguntas?; b) como o estranho poderia lhe convencer a responder as perguntas? Após um animado debate, chegou-se ao consenso de que (não podendo oferecer dinheiro, possibilidade levantada por vários alunos), havia necessidade de explicar os objetivos das perguntas, dirigir-se à pessoa com educação e explicitar a garantia do anonimato, além de dar instruções ao leitor sobre como responder corretamente as questões.

Assim, cada aluno elaborou sua proposta de texto introdutório ao questionário. Com o avançar do tempo, e eu já sentindo que precisava apressar um pouco o trabalho, acabei fazendo algo de que não me orgulho: escolhi eu mesmo o melhor texto, e pulei a importante etapa do cotejo coletivo dos textos produzidos, para escolha igualmente coletiva do texto mais adequado. Não façam isso, colegas! Tentem organizar seu tempo melhor do que eu 😏

O questionário estava pronto! Com um texto introdutório e cinco perguntas, na elaboração das quais os alunos haviam tido participação intensa, meu objetivo parecia ter sido alcançado. Vejam abaixo o resultado final:

QUESTIONÁRIO

Olá, boa tarde.
Eu sou da 532, eu quero lhe oferecer uns produtos, mas para isso você tem que responder umas perguntas que eu vou te fazer.
Mas nessas perguntas você tem que escolher uma só alternativa.
Isso é para o trabalho de Português, que é para fazer produtos para resolver os nossos problemas. Obrigada pela sua atenção.
Texto: Luana Soares

1) Na sua opinião, qual o maior problema da escola?
(  ) A merenda não é boa para o consumo
(  ) Os funcionários demoram muito para abrir a porta depois do recreio
(  ) A guerra de frutas
(  ) Entrada cedo e saída tarde
(  ) Pichações
(  ) O fedor na frente da escola
(  ) O barulho das salas
(  ) As regras de vestimentas
(  ) A ignorância dos funcionários

2) Qual é o maior problema que você enfrenta em casa?
(  ) Brigar com familiares
(  ) Ser excluído pela mãe e pelo pai
(  ) Problemas financeiros
(  ) Seus familiares estarem doentes
(  ) Seu pai e sua mãe brigarem
(  ) Castigos
(  ) Apanhar dos pais
(  ) Pais alcoólatras
(  ) Dividir as coisas com irmãos

3) Qual o problema mais sério da sua rua?
(  ) Crimes
(  ) Vizinhos fofoqueiros
(  ) Som alto
(  ) Movimentação de veículos
(  ) Lixo amontoado
(  ) Ruas esburacadas
(  ) Enchente
(  ) Brigas de vizinhos
(  ) Cultos religiosos barulhentos
(   ) “Gato” na fiação elétrica

4) Você vai ao shopping comprar um produto para usar no seu dia-a-dia. Você acha mais importante que o produto tenha…?
(  ) uma cor legal
(  ) durabilidade
(  ) qualidade
(  ) desenho
(  ) um comercial famoso
(  ) múltiplas funções
(  ) um item a mais
(  ) preço barato

5) Qual a melhor coisa que pode acontecer na sua casa?
(  ) Ser reformada
(  ) Ganhar seu próprio quarto
(  ) Ganhar seu próprio banheiro
(  ) Ganhar sua mesada
(  ) Sua família estar toda reunida
(  ) Não morar mais de aluguel
(  ) Receber a visita de um famoso
(  ) Ganhar uma piscina



Feitas cerca de 200 cópias do questionário, ele foi passado amplamente entre os alunos do 6º ao 9º ano da escola. Nessa parte, os grupos tiveram autonomia para abordar pessoas, entrar em salas, explicar oralmente o objetivo do questionário e utilizar as mais diversas estratégias, o que gerou um clima animado e dinâmico. Em pouco mais de uma hora, já tínhamos todas as folhas preenchidas, e os grupos puseram-se a contabilizar as respostas. Depois, cada grupo me repassou sua contagem, e eu fiz a organização final dos dados, a partir dos quais montei gráficos que levei para debate entre os alunos, e que renderam também uma repercussão legal no Facebook. Vejam abaixo os resultados:



 
Gráficos com resultados do questionário aplicado. Software: LibreOffice Impress.


Ainda deu tempo dos alunos passarem os gráficos para cartolina, em tamanho grande, para serem expostos na escola. Teve até gráfico tátil, feito com bolinhas de jornal, numa tentativa de adaptar o texto para um aluno com deficiência visual que compunha a turma!

Uma nota a respeito da recepção: lembro que as menções nos questionários a problemas como "a ignorância dos funcionários" e à qualidade da merenda, manifestações, a meu ver, genuínas dos alunos, sem nada de grosseria ou gratuidade, geraram um burburinho entre os adultos da escola, que se sentiram pessoalmente ofendidos ou simplesmente, como me foi relatado mais tarde, achavam que eu não deveria expor aquilo. Ao mesmo tempo, pouca ou nenhuma manifestação positiva sobre qualquer aspecto do trabalho. É como diz uma professora que tive: os silêncios também são respostas... em suma, todo professor que quiser dar voz aos alunos certamente vai se deparar com essas vozes que têm um quê de anarquia, e, se escolher levá-las ao grande público (o que é o correto), vai enfrentar esses choques com a cultura corporativista e conservadora que predomina nas escolas. Precisamos enfrentar isso, se quisermos a mudança na educação!

E assim terminou nossa pesquisa de mercado! Agora só falta a quarta e última parte do relato, na qual você confere um pouco do que os alunos fizeram com esses dados, enquanto aprendíamos sobre propaganda audiovisual. Não deixe de ler!