Nesse contexto, um personagem povoava meus pensamentos: o detetive Sherlock Holmes. Desde a adolescência eu me fascinara pelos romances e narrativas longas de meu xará Arthur Conan Doyle. Assim, dediquei algumas noites a (re)ler os livros que tinha e os que não tinha, por meio do maravilhoso blog Mundo Sherlock, procurando duas narrativas curtas que melhor reunissem o retrato das habilidades brilhantes do detetive, os enigmáticos personagens envolvidos nos crimes e as reviravoltas surpreendentes da trama. E foram exatamente dois textos que, ao final da leitura, me fizeram pensar "É esse!": O pincenê dourado, na tradução de Hamílcar de Garcia publicada no Mundo Sherlock, e Black Peter, na tradução de Jorge Ritter, que consta da edição publicada em formato de bolso pela L&PM.
Em ambas as histórias, o crime investigado é um assassinato. Em O pincenê dourado, que elegi para ler na 3ª Totalidade, a vítima é Willoughby Smith, um jovem redator que é encontrado morto no escritório do professor Coran, seu patrão, descobrindo-se como única pista do assassino um pincenê dourado feminino, esquecido no chão. Já em Black Peter, escolhido para ser lido na 4ª Totalidade, o alvo do crime é Peter Carey, um ex-capitão de navio baleeiro, conhecido pelo mau humor e pela maldade com que tratava seus subordinados e sua família, que é encontrado com um arpão atravessado em seu peito.
Ao planejar como seria o trabalho com os alunos, inspirei-me em um outro tipo de livro que também lia na juventude: as obras que colocavam o leitor como co-investigador, lançando perguntas e enigmas que precisavam ser solucionados para prosseguir na leitura. Ao mesmo tempo, eu queria ler o texto na íntegra com eles, seguindo o que estudara na faculdade a respeito de não "picotar" os textos, criando situações de ensino artificiais e negando aos alunos o acesso à obra integral. Decidi, então, dividir o texto em duas partes, apresentando inicialmente aos alunos somente a primeira e deixando a solução do mistério na segunda. Dessa forma, eu pediria a eles que, a partir da escrita e da troca de depoimentos, relatórios policiais e cartas, propusessem uma solução para o mistério do conto que a outra turma estava lendo.
A leitura e a discussão da primeira parte dos contos foi feita ao longo de quatro aulas, nas quais foi visível o interesse dos alunos pelos textos. Eles faziam perguntas, questionavam as posições dos personagens e riam frequentemente. Eu tentava intervir o mínimo possível e estabelecer um ritmo dinâmico de leitura, que atendesse às características do gênero e às expectativas naturalmente criadas pelos estudantes. Mais tarde, o aluno Edinelson me confidenciaria que aquele tinha sido o melhor texto que já tinha lido, o que me parecia ser um sentimento geral.
Chegamos, por fim, à escrita dos textos a partir da obra, etapa em que deterei mais minha análise devido ao desempenho excelente de vários alunos. Os depoimentos, relatórios e cartas criados, além de mostrarem o bom nível de escrita dos alunos e as necessidades de aprendizado de cada um, foram exemplos do que eu descobriria mais tarde serem "textos de leitor", ou seja, a operação em que "o leitor se apropria do texto: ele o reconfigura à sua imagem, completando-o com elementos oriundos de sua história pessoal e de sua cultura ou, inversamente, deixando-lhe lacunas, apagando tal aspecto que não atraiu muito a sua atenção", conforme a formulação de Annie Rouxel no artigo Ensino da literatura: experiência estética e formação do leitor. Pra não me alongar muito, limito os comentários deste texto aos depoimentos, deixando para outro momento os demais gêneros trabalhados.
Uma aluna, por exemplo, que compôs o depoimento da personagem da esposa de Peter Carey, escreveu:
Na manhã seguinte uma das criadas notou que a porta do “camarote” estava aberta e ao meio-dia eu fui ver o que tinha acontecido espiando pela porta aberta eu vi uma cena que me deixou lívida. Meu marido morto com um arpão atravessado, entrei em desespero. Por mais que ele me batesse e me desse medo, era meu marido.
Podemos observar que a aluna retrata a cena, que consta da obra, da descoberta do cadáver de Peter Carey, acentuando o terror que o fato causou na esposa. Porém, o acento de pesar introduzido pela oração "entrei em desespero", bem como pela construção subordinada "por mais que ele me batesse e me desse medo, era meu marido", são acréscimos originais da aluna, que não são vistos no conto de Conan Doyle. Assim, podemos dizer que a aluna recria a relação entre Peter Carey e a esposa dentro dos parâmetros da sua visão, mediada socialmente, de como deve ser uma relação de casamento, em que o respeito e a consideração devem estar presentes, mesmo que o comportamento do homem seja deplorável, como era o caso.
Outro aluno ficou responsável pela escrita do depoimento do pedreiro Slater, um vizinho de Peter Carey que, no conto, vê o semblante de um homem desconhecido na janela do capitão dias antes do assassinato. O resultado, muito divertido de ler, mostra a recriação pelo aluno do acento expressivo da fala do pedreiro, que não aparece falando diretamente no conto. A voz de um operário das classes populares, que domina a gíria local e parece excitado, nervoso ao depor em um caso envolvendo seus vizinhos, repetindo a mesma informação várias vezes, salta aos olhos:
Parei, vi aquele negócio estranho, era um quadro brilhando entre as árvores. Eu lembro como se fosse hoje que era um homem claramente visível atrás da cortina do “camarote” do Peter. Mas eu tenho certeza que não era a de Peter Carey, eu conhecia bem. Ele era um homem só, vivia bêbado, tinha barba grande e ele era como um capitão. E o homem que eu vi era homem feio, barba encrespada e curta. Eu tinha tomado uma pinga, mas eu tava enxergando bem sim, eu sei que eu vi, não era o capitão não. Eu sei que o crime foi na quarta, mas o homem podia ter voltado lá. Eu não tô doido não, eu sei o que eu vi, rapaz.
A mesma recriação vemos no depoimento do vigário da paróquia da região do crime, escrito por outro aluno. O tom contido, penitente, mais culto do que os outros, e o acento valorativo católico aparecem com muita clareza, criando belas imagens:
Mas sabe, sr. Hopkins, sentia pena da mulher e filha do falecido. Sempre por fazer orações demais para ajudá-lo, muitas lágrimas em suas orações e contudo muita fé também. E pelo visto nosso Deus permitiu que suas lágrimas secassem, mesmo com um fim trágico.
Os depoimentos escritos pela 3ª totalidade para o caso de O pincenê dourado também trouxeram boas produções. Destaco o texto da aluna que encarnou o personagem da governanta, sra. Marker:
Quando, de repente, ouvi um grito horrível que paralisou todo meu corpo, não conseguia me mover de tanto pavor que nem consegui identificar se era de homem ou de mulher, andei o mais rápido que pude, para ver o que aconteceu.
Quando chego na porta do escritório, encontro aquela cena horrível que nunca vou esquecer, Susan com aquele jovem nos braços, o sangue jorrando, uma cena triste de se ver, aquele jovem tão adorável, tão cheio de vida, inerte, fiquei apavorada por alguns minutos. (...)
É visível que a aluna reinventa, com exuberantes acréscimos de dramaticidade, o momento da descoberta do cadáver. Informações importantes que constam na obra, como a menção à incapacidade de distinguir o sexo da voz que gritou e a descrição da cena do crime, se misturam a dados subjetivos da personagem, como "paralisou todo meu corpo", "cena horrível que nunca vou esquecer", "jovem tão adorável, tão cheio de vida". Podemos afirmar que a aluna materializa em seu texto a tensão e a emoção experimentadas no momento da leitura, uma experiência sentimental que contribui decisivamente para a qualidade de seu texto.
Essa foi apenas a primeira atividade que desenvolvi pautada na leitura literária e na escrita de textos de leitor. Muitas outras ainda serão postadas aqui, assim como mais referências e autores importantes que abordam a temática. Mas desde já convido todos os professores, não apenas de Português, a imaginar e propor a seus alunos experiências como essa. Dedicar bastante tempo de aula para ler literatura, discuti-la e produzir textos a partir dela abre diversos caminhos para a nossa prática. Vale a pena experimentar!
Agora quero saber o que você achou. Que outras possibilidades a atividade oferece? Você já teve alguma experiência de leitura e escrita marcante com seus alunos? Deixa um comentário aí embaixo, e compartilha esse post!
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