Nas últimas postagens do blog, contei sobre o projeto da feira de produtos que venho desenvolvendo com alunos desde 2016. No interior desse trabalho, tivemos um momento que deixei de fora do relato, pois pretendia postá-lo depois. Trata-se de uma atividade que denominei Esticando histórias, pois seu objetivo era recriar uma das narrativas escritas pelos alunos como continuação do conto O traje novo do imperador, tornando os eventos da história mais complexos e intensificando os efeitos de sentido. Com isso, eu esperava evidenciar aos alunos a necessidade de não apenas expor linearmente os acontecimentos de uma narrativa, coisa que acontecia em muitos dos textos que eles tinham escrito, mas também explorar as variações de tensão, intenção e temperatura, tornando os textos mais interessantes de ser lidos.
Para isso, o texto escolhido foi o do aluno Erick, um bom exemplo de texto "plano", e, consequentemente, pouco atraente:
Depois da procissão o imperador rapidamente pegou os vigaristas malandros e prenderam os vigaristas e o imperador agradeceu a criança inteligente que falou que ele estava pelado. Anos depois o imperador morreu numa batalha, os vigaristas o imperador matou e a criança virou o imperador.
A fim de melhor didatizar a ideia diante dos alunos, coloquei o texto do Erick em uma cartolina grande, dividido em cinco partes (ver imagem ao lado). Após uma leitura e uma conversa inicial sobre o texto, em que os alunos já percebiam a pouca consistência literária dele, formamos grupos na sala e cortamos separadamente cada uma das cinco partes do texto, ficando cada equipe responsável por reescrever a parte que lhe coubesse. A missão era "esticar" a história, desenvolvendo com mais profundidade os episódios propostos por Erick, de modo a formar, no final, uma única narrativa coerente composta das cinco partes "esticadas".Nessa conversa inicial, também foi sugerido e acordado que as partes 3 e 4 trocariam de lugar uma com a outra, já que, como observaram alguns alunos, parecia estranho que a eliminação dos vigaristas pelo imperador viesse depois de sua morte. Feita a troca, os grupos puseram-se ao trabalho. Vamos ver e analisar a seguir o que cada um conseguiu fazer.
Reescrevendo a parte 1, os alunos chegaram ao seguinte resultado:Depois da procissão o imperador rapidamente pegou os vigaristas malandros. Eles falaram que não tinham feito nada! Mas o imperador falou:
— Vocês acham que eu sou burro? e eles responderam:
— Não só acho como tenho certeza!
O imperador muito bravo falou:
— Já chega!!! Levem eles para o calabouço.
— Sim senhor! disse o guarda.
O guarda levou os dois!
No caminho os vigaristas deram um soco no guarda e correram, só que no caminho o imperador os encontrou, mas não conseguiu pegá-los. Só que quando eles iam sair do castelo a criança chegou com alguns guardas, e por fim os pegaram.
Nesse texto, percebe-se o excelente trabalho feito pelo grupo não apenas por detalhes formais, como o acréscimo de pontuação expressiva e os diálogos escritos no formato padrão, com travessão e dois-pontos. O mais importante é a criação de uma linha de eventos que alternam estados narrativos diversos. No início, há uma cena cômica, com direito a uso de discurso direto com uma irreverente resposta dos vigaristas diante da interpelação do imperador, o que demonstra a interpretação qualificada feita pelos alunos do conto de Andersen e da identidade "malandra" dos falsos costureiros. Logo depois, o discurso direto dá lugar à voz do narrador, que apresenta uma sequência de ação, na qual percebemos que as frases curtas e mudanças rápidas de foco tentam criar um clima de movimento e expectativa sobre a fuga ou a captura dos vigaristas. Como se não bastasse, os alunos conseguem conectar brilhantemente seu texto com a parte da narrativa que viria a seguir, quando colocam a criança aparecendo no final e sendo responsável pela captura dos bandidos. Objetivo cumprido com sucesso!

O grupo que ficou responsável pela parte 2 apresentou o seguinte texto:
E a criança só disse:
— Não acredite em nem uma palavra desses farsantes. E o imperador respondeu:
— Obrigado pela dica. E o imperador mandou prender os dois vigaristas e um conseguiu escapar da cadeia e o vigarista, se disfarçou de mordomo para colocar um veneno no vinho do imperador, um dos mordomos reconheceu o vigarista e ele disse:
— Não é você o vigarista?
O vigarista disse:
— Não, não sou eu!
Aí o vigarista saiu correndo, o mordomo falou para o imperador. E disse:
— Nossa vamos logo procurar ele!
disse o imperador, todos saíram de lá para procurar ele e ele encontrou numa floresta escura pegou ele e caiu uma roupa preta ele disse:
— Quem é você? disse o imperador:
Ele disse:
— Sou eu o imperador! O imperador tirou a capa com um barulho de suspense ele foi preso e acabou tudo ao normal.
Em primeiro lugar, nota-se nesse trabalho uma interpretação diferente da instrução dada por mim. Enquanto a equipe do texto 1 "esticou" a história mantendo do início ao fim a narrativa estruturada com base na situação proposta no texto do Erick, os alunos do texto 2 utilizam o mote do texto original (o agradecimento do imperador à criança) apenas nas primeiras linhas, criando, na sequência, outros eventos que não foram dados de antemão. A interpretação, a princípio, não parece problemática, uma vez que a liberdade criativa dos alunos deve ser bem-vinda num trabalho como esse; nesse caso, porém, ela parece ter levado os alunos a se perderem um pouco na escrita. O texto é visivelmente confuso, bagunçado e incoerente, principalmente no final, quando mal se consegue saber o que acontece e quem fala o quê. O recurso a uma espécie de trilha sonora da narrativa, quando o imperador tira a capa "com um barulho de suspense", que poderia ser uma divertida intrusão do audiovisual no texto escrito, acaba parecendo uma confissão do mal acabamento da produção. De todo modo, permitir que um texto como esse venha à tona é importante justamente para permitir que os alunos analisem e comparem as qualidades e defeitos de uns e de outros, gerando um aprendizado mais significativo.
A terceira parte (que trocou de lugar com a quarta) foi reescrita pela equipe da seguinte forma:
O imperador com tanta fúria decidiu botar eles na forca e fazer uma votação de quem queria eles vivos e de quem queriam eles mortos e a votação não foi muito justa pelo menos para o rei não foi, e a votação foram os vigaristas que ganharam porque quarenta e cinco eram pessoas que queriam a morte dos vigaristas e quarenta e nove eram pessoas que queriam a vida dos vigaristas e o rei ficou muito furioso com isso, mas na hora certa ele teve uma ideia e levou os vigaristas para o palácio e falou esta noite vocês vão dormir no quarto de hóspedes e quando chegaram lá não era um quarto de hóspedes era uma jaula de leões e tigres e o imperador fechou rapidamente a porta da jaula e disse com toda a falsidade não durmam bem seus otários e aí os leões e os tigres começaram a atacar os vigaristas e foi sangue para tudo quanto é lado e dessa vez os vigaristas não escaparam e morreram. Aí vocês me perguntam e o imperador? E os vizinhos? Ninguém ficou sabendo de nada? Eu só peço calma que eu vou contar. Depois disso o imperador ficou meio culpado com a morte dos vigaristas. E os vizinhos começaram a desconfiar do imperador: imperador cadê os vigaristas, eu não vi mais eles por aqui, o que será que aconteceu com eles, aí o imperador não resistiu e falou a verdade. Que eles tinham morrido pelo imperador e o imperador foi banido de sua cidade. E foi para o deserto e acabou morrendo de desidratação.Dá pra perceber que, assim como no texto da parte 1, o grupo conseguiu estabelecer uma sequência coerente e potente de eventos, explorando as mudanças do personagem do imperador, que comete uma execução sádica, e, ao se arrepender, não é perdoado e morre simbolicamente no deserto, solitário e cheio de remorso. Os vigaristas assumem aqui uma característica inédita, ficando evidente que, apesar dos malfeitos, tinham conquistado uma certa estima da população, que os livra da morte e depois pergunta por eles, quando ficam muito tempo sem aparecer. O recurso da interlocução com o leitor, utilizado antes da metamorfose moral do imperador, parece uma forma inteligente de despertar curiosidade, jogando com o provável inconformismo do leitor ao ver a brutalidade e a injustiça prevalecer. Os autores chegam a "invadir" o evento da morte do imperador, que deveria estar sob a responsabilidade de outro grupo narrar; isso poderia ser considerado um erro diante do combinado inicial, porém, invertendo o ponto de vista, podemos pensar que foi um procedimento necessário para os alunos autores, uma vez que o problema moral enfrentado pelo imperador não se completaria com coerência a partir da estrutura proposta inicialmente pelo Erick, que dava um tom otimista e "limpo" ao fim da história. Daí a criação de um outro final, mais grave e reflexivo, o que os autores conseguiram fazer com excelência, a meu ver.
Vejamos agora o que fez a quarta equipe, responsável por narrar a morte do imperador numa batalha:
O imperador morreu numa batalha de 1895 anos, após uma traição com seu amigo fingia estar com o moço para o que desse e viesse, mas só que o moço não sabia que seu falso amigo era pilantra ele gostava do moço ele foi forçado trair o moço, porque [se]não iria morrer ficaram ameaçando o moço ficou muito triste de perder seu amigo que ele amava muito, na guerra foram muito contra o exército do moço o exército do moço foram 500 pessoas e o exército adversário foram 650.Por mais que haja nesse texto um esforço de criar uma trama narrativa que conduz à morte do imperador (a traição de um amigo e a superioridade do exército inimigo), "esticando" de fato o que Erick propusera, basta uma comparação com os outros textos acima para perceber que este deixa a desejar em termos de qualidade literária. Parece que os novos dados criados pela equipe vão se sucedendo como em uma lista, sem uma elaboração consistente da linguagem. O imperador passa a ser estranhamente nomeado como "o moço", um vocativo que não encontra eco no texto original, podendo ter sido assimilado pelos alunos de outros textos já produzidos em outros contextos. O resultado mostra os limites do comando dado inicialmente por mim: os alunos, a rigor, de fato "esticaram" a história, pois criaram mais eventos e elaboraram com mais profundidade os conflitos, mas isso não implicou em um bom texto. Alcançar isso parece não estar relacionado apenas às solicitações do professor, mas principalmente à intuição e ao repertório de linguagem dos alunos. Daí a importância da etapa posterior, de leitura coletiva e comentário sobre os resultados alcançados, para que eles percebessem as diferenças entre os textos.
Por fim, vamos ver como ficou a quinta e última parte (em que a criança virava o imperador) reelaborada pela equipe:
Depois da morte do imperador, uns soldados acharam o decreto do imperador dizendo que a criança se tornaria o imperador.No dia seguinte foram na casa da criança para anunciar que ele seria o novo imperador, ele ficou muito feliz quando falaram isso para ele.
Nessa época o garoto tinha 15 anos, mas o sacerdote não concordava que ele fosse o imperador, mas mesmo assim a criança aceitou ser o imperador, então os sacerdotes levaram a criança ao palácio, subiu as escadas do trono e sentou.
Depois de uns dias o imperador fez uma grande festa veio grandes reis e rainhas de grandes impérios, sua primeira ação foi fazer alianças com grandes reinos. Sua segunda ação foi mandar os melhores engenheiros, fazer uma estátua do ex-imperador. Depois de algumas horas o imperador se apresentou ao seu povo, dizendo que tudo ia mudar, ex:
— Todas as pessoas vão ser independente de mim, quem quiser embora do meu reino pode ir. Então o o imperador continuou reinando.
A meu ver, o texto cumpre, de uma forma que beira o protocolar, o subtexto da proposta do Erick, de um final feliz e luminoso, com as virtudes da criança, as mesmas que a tinham feito denunciar a nudez do imperador, agora servindo para dirigir com sabedoria e melhorar a vida de todos no reino. Dados que poderiam estabelecer algum tipo de conflito ou de obscuridade na trama, como a oposição do sacerdote, são citados apenas de passagem. Basta comparar, por exemplo, com o texto da parte 3, que tem diversos problemas formais mas que é bem mais interessante de ler, para notar a diferença. O uso da abreviação "ex:", uma forma muito usada em cópias e apostilas escolares, para introduzir o discurso direto, parece confirmar essa análise: os alunos, encarando o trabalho como uma demanda com pouco significado para eles, "denunciam" esse sentimento permitindo que recursos linguísticos presentes nas obrigações cotidianas da escola "invadam" a narrativa, mesmo não sendo apropriados para ela. Um belo tapa na cara de qualquer professor, não acham? De todo modo, a presença de um texto assim é positiva como testemunho dos diversos graus de envolvimento com o trabalho, permitindo inclusive que os alunos se autoavaliem.
Passados para cartolinas grandes que foram expostas na parede da sala, os textos resultantes foram alvo de crítica e debate, em que expus sumariamente algumas das análises feitas acima, e os alunos também levantaram percepções, apontando qualidades e problemas dos textos. Além da exposição dos textos em formato ampliado funcionar como legitimação das produções escritas, o fato dos textos serem debatidos, e não apenas avaliados pelo professor, permitiu a cada aluno elaborar seu próprio trabalho com a linguagem. Bom, pelo menos é o que eu espero... certas (muitas) coisas da aula de Português não se medem senão com o tempo, e, como sabemos, na escola raramente temos realmente tempo para apreciar o crescimento de nossos alunos...
Essa atividade ficou marcada com grande importância para mim. Senti que concretizei o que o professor Thomas Fairchild, no artigo Que escola é essa? Não existe objeto de ensino onde não haja um sujeito que ensine, postula como a necessidade de responder ao texto do aluno, deixando de evitar a palavra do outro, mantendo-a como um mero objeto impessoal de cumprimento de tarefas. Da mesma forma, Riolfi e Magalhães, em artigo, defendem que ensinemos aos alunos a "assumir sua diferença naquilo que escrevem", chamando atenção para os textos como modalizações de posições subjetivas, distantes da neutralidade. O material produzido pelos alunos oferece inúmeros dados não apenas para discussão em sala e elaboração de aulas, mas também para análise científica.
Não deixe de me contar o que você achou! Algum comentário a mais sobre os textos dos alunos? Tem alguma experiência legal de reescrita textual? Vai nos comentários 😎
Trabalho admirável amigo!Parabéns! Continue nos inspirando.
ResponderExcluirobrigado, adriane! não esqueça de acompanhar o blog clicando em "seguir", na lateral direita da página. abraço.
ExcluirAdorei, Arthur! Bela experiência. Gostaria do link para o texto do Fairchild que vc citou...
ResponderExcluirobrigado, amdréa! não achei nenhum link para o texto do thomas. vou tentar conseguir novamente com ele, se conseguir repasso, ok? abraço
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